Nicole Tinôco

30/01/2018
Se eu quisesse falar com Deus, o que será mesmo que eu diria. Nesse tão sonhado encontro  talvez eu quebrasse o protocolo, e, muito provavelmente acabaria decepcionando um pouco os que seguem as mesmas crenças que eu. Acho que se eu tivesse alguns minutos à sós com o Criador, não falaríamos de amenidades, e suponho até que a mim não seria oportunizada uma nova chance, pois, após um natural encantamento inicial, acredito que logo em seguida viria avalanches de perguntas, questionamentos, ou melhor inquirições a respeito do porque dele nos permitir sentir tantas dores.  
 
As primeiras perguntas perpassariam sobre as doenças da alma. Como explica-se um ser de tanta luz, que desde os primórdios propaga a mensagem de amor, aceitar que em um mundo fruto de suas vontades tantas pessoas vivam a chorar, sofrer a exaustão, chegando até a desejar com afinco por fim aquilo que teoricamente seria o maior presente por ele deixado a nós, a vida. Sabendo que elas fazem isto não por egoísmos ou fraquezas e sim carregadas de penar, por sentir que tal “dom da vida” que lhes é concedido ao nascer soa tantas vezes como um fardo terminantemente cansativo.   
   
Sei que estas linhas estão carregadas de uma dureza pouco por aqui vista, que falar de amor é muito melhor do que de dor, mas este sentimento presente e constante em nossas vidas não pode ser ignorado. Ele é carregado de mistério. Surgem e findam gerações e não se há definição de onde começa e termina a tristeza, eis um tabu que está longe de ser resolvido. E, se falar da dor alheia já é delicado, vamos agora encarar a mais difícil das feridas, a nossa, aquela que carregamos desde a hora que acordamos e que nos persegue durante todas as horas do dia, muitas vezes chegando a nos impedir de descansar, uma inquietude que ultrapassa a lógica nos deixando acordados até mesmo quando o corpo físico grita por descanso. 
 
Conversava com um amigo noite passada, e ao partilhar as minhas complicações pessoais recebo em troca o sermão a mim tão repetido, e você que também sofre deve estar igualmente farto de ouvir: “Você não tem do que reclamar, sua vida e ótima. Tanta gente que passa por problemas reais e você com isso.” Provável também que ele, meu amigo, pense o mesmo de mim, mais um ciclo do ano e “ ela” repetindo os mesmo anseios. Um palavra nessa história precisa ser levada em consideração, quem enfrenta transtornos da mente vive em ciclos e lidar com isso é o primeiro passo para um vida mais digna. 
 
“Você vai ficar bem, se fizer o tratamento direitinho, tudo passa”. Não caros amigos, não passa. Uma certeza que se tem é que não se vence a dor como uma batalha de desenho animado em que a saúde é a mocinha que vence a doença má, o caminho não é esse.  É possível controlar as dores, evitar episódios de fuga emocional, contornar as crises da maneira mais eficaz, sofrer não e uma questão de opção, diminuir o sofrimento, encurtar os períodos de dores sim, e entender isso é crucial, evita decepções e falsas expectativas tanto para quem convive com a dor, como também aos seus pares, que indiretamente adoecem junto. 
 
Li uma matéria no site do Uol esta semana que falava de uma mulher que escutava 5 tipos diferentes de vozes em sua cabeça todos os dias. Cada uma possuía nome próprio, características, idades especificas fazendo com que ela as pudesse distinguir com facilidade. A britânica Rachel ouve vozes que na maior parte do tempo a denigrem, diminuem, incentivam a tristeza, chegando até a estimular que ela faça cessar sua própria vida. A personagem do texto foi diagnosticada com uma combinação de transtorno bipolar e esquizofrenia, mas por mais incomum que pareça o seu caso, 2% da população mundial sofre também por ter que conviver com vozes em suas mentes, tendo muitas vezes que com elas estabelecer relações regulares de coexistência. Estamos abordando aqui casos de ilusões auditivas, diagnosticadas e portanto a elas dedicadas um tratamento devido.
 
 E se pensarmos nas vozes silenciadas? Que não são objeto de estudo da ciência mas que igualmente teimam em não calar?  Trato aqui dos sons da ansiedade, das angustias, dos corações acelerados. Vozes que dizem que você não pode, não consegue, não vai levantar, não deve seguir em frente.  Elas estão no âmbito da subjetividade, só quem entende são aqueles que as carregam todos os dias, não como forma de alucinação como acima descrito, e sim como mantra diário que entoa em nossas mentes nos exigindo um esforço fora do comum para que consigamos não dar a elas ouvido.
 
Já não é novidade, venho ressaltando, reafirmo e continuarei a insistir no assunto. A doença do século não é a Aids, câncer, ou qualquer outra ligada diretamente ao físico, a sociedade está enferma de um mal que tem diagnóstico impreciso e extremamente prejudicado pelo preconceito e pela ignorância. A humanidade adoeceu, e o órgão afetado é a mente, cuidemos dela com pressa, pois ao contrario do que se afirmou por muito tempo, de tristeza se morre sim, e muito.