Daniel Costa

27/03/2019
 
A NOVA POLÍTICA
 
 
Uma questão que ficou no ar após a vitória de Bolsonaro foi a de como ele iria atuar nos espaços políticos para conseguir governar. Os discursos estrambóticos do presidente durante a campanha, relacionados à ideia de impor uma nova política, não faziam liga com a forma de administrar estabelecida no país após o período ditatorial, com a redemocratização, quando o chamado presidencialismo de coalizão passou a dar a cor das tintas; o que significou a necessidade de angariar a maioria no Congresso Nacional para assumir as rédeas do poder e assim conquistar a governabilidade.
 
A partir de então, não seguindo esse mantra, o presidente fica numa camisa de forças, com as mãos amarradas, sem ser capaz de levar à frente os seus projetos. Fernando Collor tentou ir de encontro ao tal sistema. Achou que era o todo poderoso caçador de marajás capaz de governar com as suas próprias forças. E se deu mal. O desfecho já é conhecido: sofreu o revés do impeachment.
 
No caso de Lula, aconteceu o contrário. Quando toda a oposição pensou que ele cairia na esparrela de enfrentar o Congresso para pôr em prática um governo mais social, nos moldes daquele que foi imposto por Hugo Chávez na Venezuela, ele deu uma escapada para o centro e governou seguindo as lições do presidencialismo de coalizão, forjando, portanto, o bloco de apoio necessário para governar. Aí o seu tiro de sniper.
 
Voltando para o caso de Jair Bolsonaro, todo mundo acompanhou um primeiro mês de governo em que rapidamente se tentou jogar um novo jogo, apostando nas bancadas temáticas em detrimento das negociações com os partidos. No segundo mês de governo, entretanto, com o descontentamento das lideranças partidárias, o modus operandi de costume parece ter sido recuperado: ele se compôs com o presidente da Câmara dos Deputados e distribuiu R$ 1 bilhão em emendas para congressistas; de modo que, apesar das suas patacoadas junto com os seus rottweilers de estimação, as coisas pareciam caminhar, entre trancos e barrancos, na direção da formação de uma base aliada.  
 
Agora, porém, com o conflito nascido entre ele e Rodrigo Maia; a nomeação de um Major desconhecido como líder do governo na Câmara; e a insatisfação do seu próprio partido com a articulação política; Bolsonaro está perdendo o controle do carro presidencial. Não há dúvida de que ele terá que reconquistar o apoio do presidente da Câmara caso não queira, antes do tempo, figurar no rol dos ex-presidentes.
 
A não ser que  aquelas suas ideias autoritárias, bem demarcadas durante a campanha eleitoral, sejam regurgitadas para a esfera da realidade. Mas aí veríamos não o nascimento de uma nova política, porém o ressurgimento da velha política, de soldados e de cabos, diferente das práticas do presidencialismo de coalizão, e a planetas de distância do regime democrático.