Andrea Nogueira

06/04/2019
Continuar humano apesar da História
 
O Brasil já passou por momentos que envergonham alguns, a outros não. Mas ter um passado sombrio é história de muitos países e o seu povo pode fazer o que quiser com isso. O povo pode negar o seu passado, pode amenizar os erros com diversas histórias e apontamentos de culpa, pode tentar explicar atos, decisões, omissões, comportamentos ou qualquer outro ponto de um período destacado em sua história patriota. O povo faz o que quiser com sua história, mas ela estará sempre no mesmo lugar. Contudo, o futuro deste povo será construído a partir do tratamento que ele dá ao seu passado.
 
O “país tropical” já foi escravizador, até que nos anos 70 começaram a surgir leis abolicionistas para, aos poucos, começar a implantar uma cultura de igualdade entre pessoas brancas e pessoas negras. Porém, até hoje existe quem tente justificar a aquisição de escravos daquela época. Para muitos, foi difícil se acostumar com o fim da escravidão. Aliás, foi difícil se acostumar com uma legislação que tornou a escravidão ilegal no país. Contudo, boa parte do povo brasileiro conhece este seu passado e se envergonha dele.
 
O Brasil também foi reconhecido violento com suas mulheres, pois não tinha políticas de Estado para combater a violência doméstica e familiar, sendo completamente normal e aceitável que homens matassem suas esposas sob a justificativa que defendiam sua honra diante de eventual fama de corno. Fama. Pois é. Foi preciso que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, em seu informe de n. 54/ano 2001 responsabilizasse o Estado Brasileiro por negligência, omissão e tolerância em relação à violência doméstica contra as mulheres, para que uma Legislação fosse finalmente criada na tentativa de frear tamanho desamor nas relações conjugais. Mas há ainda quem diga que o Estado não deveria interferir na vida privada. Há quem negue que a violência existiu ou existe. Há quem tente justificar apresentando fatos pontuais de mulheres que revidam. Há quem diga que algumas mulheres gostam do que sofrem. Mas há ainda uma parte da população que simplesmente se envergonha do seu passado carente de legislação protetiva.
 
Em determinado período, as Forças Armadas decidiram governar o Brasil, pois defendiam que suas ideias eram as melhores para o país. Sua força física era incomparável a do seu opositor. Assim, este “país abençoado por Deus” utilizou força para conter e combater seus opositores de ideias. Durante um período de vinte e um anos as Forças Armadas permaneceram no controle do país, até que a população alcançou o direito de eleger o seu representante, além de anistia para presos políticos e exilados. O uso de violência contra pessoas neste período não é ficção, mas ainda há quem negue, amenize ou tente justifica-lo. Muitos brasileiros comemoram aquele tempo sem fazer memória das torturas, prisões ilegais e vidas ceifadas. Aliás, a quem comemore as ações de torturas, prisões e mortes simplesmente por acharem que as vítimas mereciam. Mas há também pessoas que conhecem este passado e se envergonham dele.
 
O frenesi das redes sociais estimula a população a escolher um lado. Como se numa história mergulhada em violência contra o ser humano existisse lado bom. Pode até haver duas ou mais versões, mas a história é uma só. E que ela sirva de norte para o futuro. Lembrar para não mais violentar qualquer pessoa, por qualquer razão, mesmo que a Lei aprove, como era na época da escravidão, ou quando simplesmente não houver legislação reguladora, como era antes da Lei Maria da Penha. 
 
Não existe justiça no erro. Assim, podem até tentar explicá-lo, mas nunca poderão justifica-lo.