Andrea Nogueira

20/04/2019
 
Marias que pensam, falam e agem
 
"Todas as espécies, todas as formações, todas as criaturas estão unidas, elas dependem umas das outras e se separarão novamente em sua própria origem. Pois a essência da matéria somente se separará de novo em sua própria essência. Quem tem ouvidos para ouvir que ouça" – este trecho inicia um documento pouco conhecido: o Evangelho Gnóstico de Maria Madalena.
 
Este livro foi descoberto fragmentado em dois textos, no Egito, e uma característica importante dele é que traz Maria Madalena como uma filósofa e mensageira de Jesus. Estudos revelam que foi escrito por volta do século II depois de Cristo, assim, obviamente não foi escrito por Maria Madalena, mas leva o seu nome porque a traz como uma personagem principal. É um livro pequeno que anota alguns poucos diálogos de Maria com outros apóstolos, respondendo algumas perguntas destes, pois ainda estaria recebendo revelações de Jesus, mesmo depois da sua morte.
 
Bastante intrigante e nada incomum é a parte final deste livro, já que após Maria Madalena responder as perguntas dos apóstolos, estes colocam em xeque a veracidade de suas afirmações, especialmente pelo fato dela ser mulher. Assim está escrito: "Será que ele realmente conversou em particular com uma mulher e não abertamente conosco? Devemos mudar de opinião e ouvirmos ela? Ele a preferiu a nós?".
 
A Igreja Católica não reconhece o livro como Evangelho canônico. Os Evangelhos admitidos pela Igreja são os chamados de Mateus, Marcos, Lucas e João, onde encontramos o registro de que a primeira apresentação do Cristo ressuscitado foi para esta Maria.
 
O reconhecimento da mulher como pessoa capaz de pensar por si própria e ter ideias é recente. Assim, certamente foi bastante difícil para os apóstolos aceitarem mulheres entre eles, especialmente quando algumas dessas tinham convívio próximo de Jesus. Deve ter sido difícil ver seu Mestre dando atenção a um ser quem não era reconhecido sequer como pessoa de direitos. E toda aquela cultura machista tão comum e naturalmente disseminada acabava por minar qualquer possibilidade de elevação da mulher como pessoa tão importante e capaz quanto o homem.
 
Mas o reconhecimento do mencionado livro como Evangelho encontrou resistência também no fato de ter sido encontrado faltando as páginas 1 a 6 e 11 a 14. Há quem acredite que as páginas foram devidamente guardadas para não revelarem uma história secreta. Mas o fato é que os registros históricos dão conta de quem o livro já foi encontrado sem estas páginas.
 
Até hoje, a Igreja Católica mantém o homem como o único digno de sucessão apostólica. Assim, apenas homens são ordenados padres e a existência de religiosas, como freiras ou monjas não eleva as mulheres à categoria de apóstola.
 
No dia 17 de maio do ano 2017, o Papa Francisco apresentou Maria Madalena como a Apóstola da Esperança. Mas tal reconhecimento ainda não foi suficiente para inserir as mulheres na missão divina do sacerdócio sacramental. 
 
O livro aqui referido, publicado em 1955 e reconhecido por algumas pessoas como o “Evangelho de Maria Madalena”, pode até impulsionar uma reflexão sobre o que se conhece sobre a história do cristianismo. Mas impulsiona ainda outra reflexão especial: que sempre houve luta de mulheres para serem ouvidas. Assim, importa trazer à lembrança um importante conselho de Simone De Beauvoir: “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida”.
 
Reflexões são sempre bem vindas, especialmente quando tecem uma sociedade em busca da igualdade plena entre homens e mulheres, afinal "todas as espécies, todas as formações, todas as criaturas estão unidas, elas dependem umas das outras e se separarão novamente em sua própria origem”.