Cefas Carvalho

24/04/2019
 
A musica popular de hoje como cronica da realidade
 
Ouvindo no bar, set list de horas com Maiara & Maraísa, Marília Mendonça, Henrique & Juliano, Simone & Simaria, Mano Walter e até mesmo o famigerado Wesley Safadão, se deixarmos a rabugice e gosto musical esnobe de lado em ambiente público (bar é bar, lar é lar) podemos perceber para além das limitações e do popular, nas letras desse pessoal (ainda que sejam encomendadas em maioria e não autorais) uma espécie de crônica de um grupo social e de um momento. Letras que refletem - por bem ou por mal - machismo, empoderamento feminino, relacionamentos, dores, amores, vício e problemas cotidianos, incluindo preconceitos e baixarias.
 
Já houve tempos em que a crônica social da época era subestimada (samba nos anos 20 e 30, pré-bossa nova, rock nacional anos 80). Ninguém precisa ouvir Safadão em casa, mas também não cabe mais ter nojo de Marília Mendonça e suas crônicas das mulheres traídas ou de Anitta e seu universo de periférica adentrando um mundo globalizado.
 
Lembro que um dia Paula Toller e seu "Diz pra eu ficar muda/faz cara de mistério/tira essa bermuda que eu quero você sério" era ridicularizado. Hoje é clássico.
 
E que tal "Amei sozinho mas por dois/Me conformei que agora e não depois /Vou ter que seguir em frente.../Preocupa não/ Que eu não vou bater no seu portão..." de Marília Mendonça em "Ausência"?
 
Tá, o cancioneiro popular atual tem umas bizarrices. Mas, a geração nostálgica com 40/50 anos cresceu ouvindo "Ursinho Blau-Blau" e Dr. Silvana cantando "Ela foi dar, mamãe...". Tudo bem que tinha Legião, Titãs e Cazuza, mas o que tocava nas festas era Sarajane com "Vamos abrir a roda/enlarguecer/ Abre a rodinha, meu amor..." e Beto Barbosa com "Adocica". Muita calma nesta hora, portanto.