Cefas Carvalho

29/05/2019
 
O Brasil de hoje não está para coisas amenas. Ainda assim, sigamos!
 
 
Encontro com o amigo na padaria e ele diz, de cara, que acompanha meus textos aqui neste Portal PN e nas redes sociais. "Mas você está escrevendo só sobre coisas sérias, pesadas", reclama. 
 
À noite, uma amiga manda mensagem no mesmo sentido: "Cefas, mas que texto pessimista o que você escreveu ontem", comentou.
 
E eu que achava que escrevia bastante sobre trivialidades cotidianas: a música "ruim" tocada no barzinho; o cobrador do alternativo paquerando a moça que passa, uma e outra poesia mais lírica, enfim. Mas, fazendo uma autoavaliação, as pessoas queridas até têm razão. Boa parte do que venho escrevendo é de cunho político e/ou amargo/pessimista.
 
Contudo, os tempos não estão para os sonhadores, como diria Amelie Poulain, que era feliz na sua idílica Paris verde e vermelho e não sabia. Aqui no Brasil de 2019, está cada vez mais difícil deixar aflorar o lúdico, o poético. De um lado, desempregos e recessão; de outro, cortes na Educação e uma Reforma da Previdência que vai sobrar para o lado mais fraco da corda, claro.
 
E em meio a tudo isso, o mais do mesmo de sempre amplificado, como sob uma lupa distópica: um governador sociopata no Rio de janeiro que se diverte atirando de um helicóptero; dezenas de mortes em presídio em Manaus; moradores de rua mortos em São Paulo a sangue frio.
 
O que poderia ser um respiro de humor, é até engraçado por vias tortas: a nova alucinação da Damares, o erro infantil de conta do ministro da Educação com seus chocolates, o prendedor de gravata em forma de fuzil de Eduardo Bolsonaro em pleno casamento, os tuítes amalucados de Carluxo. Tudo isso nos diverte, mas o sorriso no final é amargo, porque provém de uma distopia que se tornou real. O Brasil de hoje parece uma alucinação.
 
Ah, Cefas, mas a arte tem de resistir a este cenário. Claro que sim, e ela está aí para mostrar isso, desde as vitórias de "Bacurau" e "A vida invisível de Euridice Galvão" em Cannes até o Prêmio Camões para Chico Buarque, passando pelos êxitos aqui no nosso rincão potiguar, com o grupo Carmin e atores e atrizes ganhando o país, o Beco da Lama fervilhando, produção musical crescente, enfim, a arte pulsa. Mas, o país continua dolorido.
 
A gente vai se amando e bebendo uma cachaça, senão não segura esse rojão, como cantou Chico em "Meu caro amigo". Mas, a verdade é que o Brasil está pouco afeito a amenidades nestes tempos sombrios. Sigamos.