Andrezza Tavares

02/06/2019
Indisciplina, disciplina e o processo educativo
 
Por Andrezza Tavares - Profa. Dra. IFRN
e Elda Melo -  Profa. Dra.UFRN
 
      O diálogo sobre disciplina/indisciplina é ponto central que tem preocupado, cada vez mais, pais, educadores e gestores, sendo muito discutido dentro e fora da escola. 
 
      A complexa sociedade contemporânea estabelece novos modelos de escola, família e de disciplina em que não existem padrões únicos. O próprio conceito de família, com pai e mãe mudou. Cumpre destacar que as mudanças de valores sociais e morais, família e escola nem sempre se encontram, daí conflitos serem gerados. 
 
      Quando falamos indisciplina, supomos, pelo sentido do prefixo “in” que se está negando a disciplina. Por este raciocínio, indisciplina passa a ser a ausência da disciplina. No dicionário, iremos encontrar a definição de disciplina, como sendo um regime de ordem imposta ou livremente consentida. 
 
       Na literatura educacional progressista é dito que a disciplina nas escolas não deve ser compreendida como um mecanismo de opressão e controle, mas como um conjunto de parâmetros que devem ser internalizados por todos, visando o desenvolvimento de uma prática que valorize interações, descobertas e construções.
 
       Pesquisas do campo espistêmico da psicologia da educação sugerem que a concepção de disciplina na escola precisa está associada à organização e planejamento do corpo gestor e dos educadores que, devem se afastar de uma visão autoritária e trilhar caminhos em direção à construção de uma gestão participativa, que seja compartilhada por todos aqueles que constituem a unidade escolar. 
 
    Assim, urge a necessidade de rever os papéis e comportamentos tanto dos atores que estão no “topo” das instituições educacional (diretores, coordenadores e professores),  como daqueles que constituem a base deste sistema: estudantes e comunidade escolar.
 
     O ciclo da indisciplina escolar torna-se ciclicamente persistente quando a escola se distancia dos princípios da gestão democrática. Quando os professores procuram interagir com os alunos “danados”, organizando/preparando uma aula vinculada ao seu interesse, que os motiva a aprender, o problema da indisciplina tende a diminuir significativamente. 
 
      Concebemos ainda, que o problema (indisciplina) se intensifica na medida que o analisamos em uma perspectiva unilateral. O foco do olhar para a indisciplina escolar é muitas vezes condizente apenas com os comportamentos "desrespeitosos" e "agressivos" dos alunos dentro da escola. Porém, se não há combinados e limites estabelecidos e dialogados, como gerir este processo? Não é regra ampliar os diálogos sobre ética e valores, ou por ignorarmos a complexidade do fenômeno ou por termos adquirido o hábito do imediatismo. A sala está muito barulhenta? Vamos passar um texto no quadro e pedir que os alunos copiem. O silêncio ocorre e todos ficam tranqüilos. Solução imediata e que progressivamente agrava o problema da indisciplina na escola, pois é na indignação que se revela a anarquia. 
     
     Procurar compreender os gatilhos da indisciplina na escola significa antes de tudo, considerar a sala de aula como um conjunto de sistemas de representação. A construção dos conhecimentos curriculares e consequentemente dos indivíduos implica em realizar dinâmicas escolares que propiciem o movimento eterno do desenvolvimento humano, que orientem o indivíduo para a autonomia solidária. 
 
      É na interação com o aluno que os trabalhadores da educação têm condições concretas de compreender os próprios limites e as possibilidades criativas para contextos assertivos. Como seria maravilhoso se todas essas forças e fatores se conjugassem da forma mais harmoniosa possível!
 
      É maturidade entender disciplina/indisciplina como algo que deve ser refletido sempre levando em conta o grau de compreensão de pontos de vistas dos estudantes. Ao falar de disciplina não nos referimos ao imobilismo, à obediência cega, mas a uma atuação do indivíduo, no grupo, de modo ativo, participativo, atuante e consciente. A disciplina é algo vivo, que confere satisfação nos próprios atos de se organizar, de realizar e de colher. 
 
          É através da educação que os seres humanos vão se tornando cada vez mais seres sociais. Para interagirmos uns com os outros de forma harmônica temos que internalizar compreensões que possibilitem essas interações. Na perspectiva da filosofia da práxis, a linguagem é o instrumento privilegiado dessas interações, possibilitando a comunicação. A interação entre educadores e estudantes será eficiente e qualitativa quanto mais diálogos forem estabelecidos. 
 
 
Referências 
 
DE LA TAILLE, Y. A indisciplina e o sentimento de vergonha. In: AQUINO, Júlio Groppa. Indisciplina na escola. Alternativas Teóricas e Práticas. São Paulo: Summus, 1996, p. 09-22. 
 
ESTRELA, Maria Tereza. Disciplina e indisciplina nas principais correntes pedagógicas contemporâneas. In: ESTRELA, Maria Tereza. Relação pedagógica, disciplina e indisciplina na aula. Porto: Porto Editora Ltda, 1994, p. 15-26.
 
MAIA, A. M. Aguiar e CARVALHO, Mª R. Gestão e indisciplina escolar: desafios dos novos tempos. VII Seminário de Pesquisa do CCSA/UFRN, 2001.