Daniel Costa

07/06/2019
 
MERITOCRACIA PARA NEGROS?
 
 
Campo de concentração de "Natzweiler-Struthof", na região dos "Voges". O homem que chega com um grupo de turistas é Boris Pahor, escritor esloveno, antigo prisioneiro que volta ao lugar onde sofrera os horrores da Segunda Guerra Mundial.Um guia explica como funciona o forno crematório. Pahor vê um jovem casal se beijar. Nesse momento, percebe que jamais alguém será capaz de compreender o que foi viver naquele inferno.
 
Esse sentimento de incompreensão da dor, narrado na autobiografia chamada "Necrópole", parece ser relacionado com o que é sentido pelos negros, que sofrem sozinhos as amarguras do preconceito. Apesar disso, o exercício fácil de olhar ao redor e vê-los corriqueiramente trabalhando como garçons, domésticas, babás ou bedéis; afastados dos cinemas, das universidades e dos empregos públicos, deve ser suficiente para deixar claro que o problema do preconceito racial existe e que é preciso fazer alguma coisa pela massa negra.
 
O próprio governo federal, quando capitaneado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, reconheceu oficialmente a existência do preconceito racial no país, iniciando o debate público sobre o assunto. Avançando nesse sentido, os governos posteriores praticaram ações afirmativas, instituindo as cotas nas universidades públicas e promulgando lei que prevê a reserva de vagas para negros nos concursos públicos.
 
Claro, muita gente é contra esse tipo de ação governamental. O atual presidente do país, inclusive, já declarou que a política de cotas é "equivocada". Na verdade, afora o próprio preconceito, o argumento principal gira em torno da chamada meritocracia. Para essas pessoas o acesso aos cargos públicos e às universidades deve ocorrer de acordo com o mérito e o esforço individual, independentemente da cor e da classe social.
 
Muito bom. O problema é que brancos e negros não estão em condições de igualdade nessa disputa. No Brasil, em consequência de uma exclusão histórica, iniciada nos tempos da escravidão, a cor negra está intimamente ligada a uma baixíssima condição social. O que significa um escasso acesso à educação e à saúde de qualidade.
 
Mas não é só. O preconceito racial, apesar de relacionado com o problema de natureza social, é coisa diferente. A simples cor negra impõe barreiras psicológicas e práticas. As crianças negras, por exemplo, têm dificuldade em se enxergar ocupando empregos que não sejam os de doméstica, pedreiro ou segurança. Como diz Darcy Ribeiro, existe uma efetiva condição de inferioridade, produzida pelo tratamento opressivo que o negro suportou por séculos sem nenhuma satisfação compensatória.
 
Isso significa dizer que, diferentemente do que muitos pensam, não basta que o governo invista na melhoria das escolas públicas (ainda que esse tipo de medida seja extremamente necessária). É preciso que sejam acionados programas governamentais que ataquem diretamente o preconceito racial. A notória afirmação de Aristóteles, segundo a qual a igualdade consiste em tratar igualmente os desiguais, não pode ser esquecida. Só assim, a nossa sociedade será realmente democrática. Só então será possível exigir a aplicação da tão propalada meritocracia.
 
Sabe qual é a grande e incontrastável verdade? É que a maioria da  população brasileira é como aquele casal de namorados do campo de concentração: ignorante quanto ao tamanho da dor e do sofrimento. Por isso, é preciso ficar atento. Suspender o beijo, visualizar palidamente a realidade e ser capaz de perceber que os negros não são serviçais por mera opção.