Ana Carolina Monte Procópio

10/06/2019
 
Pela vida das mulheres
 
Lendo um livro de antologia de crônicas brasileiras  , encontrei uma de Lima Barreto, datada de janeiro de 1915, chamada Não as matem. A leitura chama a atenção pela atualidade, embora conte com mais de 100 anos. Essa foi uma triste constatação, pois demonstra que a situação não melhorou em um século. Aliás, eu ousaria pensar que piorou.
 
Ao pesquisar sobre o assunto referente ao número de feminicídios no Google, por exemplo, os informes são uníssonos em apontar o aumento desse tipo de crime no Brasil em 2019. É chegada a hora de um olhar mais profundo sobre o que está impulsionando a sociedade brasileira nesse sentido. Primeiro, há que se pensar que a criação do tipo penal feminicídio representa um avanço legal, no sentido de se punir com maior rigor os crimes motivados pela condição feminina da vítima. Por outro lado, o fato de ter havido essa necessidade mostra que a realidade social que motivou a alteração legal é da maior gravidade. Portanto, se há razões para celebrar uma maior punição aos crimes contra as mulheres, também é certo que o recrudescimento da violência referida aponta para um estado de barbárie, de caos social. 
 
Diz Lima Barreto em sua crônica: Eles se julgam com o direito de impor o seu amor ou o seu desejo a quem não os quer. (...) O ladrão ainda nos deixa com vida, se lhe passamos o dinheiro; os tais passionais, porém, nem estabelecem a alternativa: a bolsa ou a vida. Eles, não; matam logo. (...) Todas as considerações que se possam fazer, tendentes a convencer os homens de que eles não têm sobre as mulheres domínio outro que não aquele que venha da afeição, não devem ser desprezadas. Esse obsoleto domínio à valentona, do homem sobre a mulher, é coisa tão horrorosa, que enche de indignação.
 
Repare-se que, já em 1915, o célebre autor denunciava como obsoleto esse domínio feito à força sobre a mulher. 
 
Pois bem, não evoluiu o meio social nesses mais de 100 anos desde então. Ao contrário, as notícias cada dia mais bárbaras de crimes fatais contra as mulheres revelam um grau de crueldade, sadismo e agressividade que parecem apontar para uma direção: o reconhecimento da condição de objeto em que os criminosos têm a mulher. Muitos não suportam o fim de seus relacionamentos e preferem tirar a vida de quem não compactuou com seu desejo e seu querer. Assim, sem reconhecer na outra – companheira, esposa, namorada ou ex-parceira – a condição de sujeito de sua própria história e de sua vontade, o agressor simplesmente a elimina por não se lhe sujeitar. Como se coisa fosse, e não ser humano. É justamente esse sentimento que “coisifica” as mulheres e que tem se propagado na sociedade brasileira, principalmente na atual quadra, que permite que essa realidade se mantenha.
 
Há uma permissão simbólica no momento presente brasileiro que facilita a expansão da violência contra o gênero feminino. O mal contra a mulher tornou-se banal, tomando-se de empréstimo a expressão de Hannah Arendt. Uma vez que altos representantes da República manifestam-se fazendo apologias à tortura e ao estupro, por exemplo, os impulsos do machismo em sua forma mais violenta, fatal, encontram terreno fértil para atuarem. É preciso entendermos que a sublimação dos desejos é uma construção que se faz em sociedade, coletivamente, e é preciso também que enxerguemos que as situações de feminicídio não são, em sua maioria, salvo exceções que venham a ser comprovadas, fruto de mentes individualmente pervertidas, mas de uma sociedade profundamente adoecida em seus valores e totalmente carente de limites. 
 
Mulheres, tantas foram as lutas por direitos, melhores condições de trabalho, assistência social, proteção à maternidade, direitos civis e políticos; são tantas as conquistas obtidas com sangue e dor ao longo de milênios de patriarcado e eis que, em pleno século XXI, após a Humanidade ter conhecido tanta evolução tecnológica e reconhecido o primado da razão e do humanismo, ainda nos encontramos lutando por nossas vidas!