Andrea Nogueira

15/06/2019
 
Fogueira pra quem tem fogo 
 
Mês arretado para o Nordestino é o mês de junho, até fogueira tem!
 
Um homem bastante lembrado nos tempos juninos é nada mais nada menos do que o primo de Jesus: João Batista. Sua mãe morava longe de uma prima muito querida e precisava avisá-la quando fosse “dar à luz”, mas não havia correios, telefone e e-mail naquela época. A mãe de João providenciou uma fogueira no topo de um monte para que a claridade e a fumaça sinalizassem a boa notícia do parto. Assim, logo chegaram os amigos para visita-la e depois sua querida prima Maria. Tradicionalmente os católicos acendem fogueira no dia 24 de junho, quando comemoram o dia do nascimento de São João. 
 
Utilizada para o bem ou para o mal, a fogueira tem papel marcante na história da humanidade. É famosa por ter sido utilizada como método de aplicação de pena de morte durante a idade média, inicialmente pela Igreja Católica e depois pelas Igrejas Protestantes.
 
Em tempos modernos, uma fogueira sem chamas também se tornou bastante popular: a chamada “Queima de Sutiãs”. Chamou-se “queima”, mas nunca queimou. Na verdade, sutiãs e diversos outros objetos como sapatos de salto alto, cílios postiços, maquiagens, revistas femininas e tintas para o cabelo foram amontoados no chão, durante um concurso de beleza do ano 1968, simulando uma fogueira como forma de denunciar a exploração comercial da beleza feminina que oprimia mulheres por não terem características físicas “adequadas”. O fogo não foi ateado, pois estavam em uma área privada. Após este evento emblemático, e já com uma forma de manifestação incompreendida, houve queimas reais de sutiãs em algumas partes do mundo para “relembrar” o ocorrido na década de 60 e frisar que mulheres não podem ser objetos de opressão comercial ou social. Hodiernamente, muita gente fala com raiva da “queima de sutiãs” que jamais aconteceu.
 
Seja para iluminar, matar ou chamar a atenção, a fogueira já assumiu papeis relevantes.
 
Em época junina atual, muitas pessoas acendem fogueiras, mas não sabem explicar por que fazem isso. Repetem um gesto aparentemente sem significação e acabam dando outro significado ao ato. Do mesmo modo, correm o risco de fazer fogueiras em protestos que mais confundem do que esclarecem. Pode faltar bom senso ou faltar interesse de conhecer a raiz dos acontecimentos. Pode faltar prudência. Mas seja qual for o motivo do fogo, certamente há uma grande história ali enraizada. Aceitar não é a questão. É preciso compreender. Ouvir mais e falar menos. Aprender.  Como diria Leon Tolstoi, “há quem passe pelo bosque e apenas veja lenha para a fogueira.” Podemos acrescentar: há quem passe por uma fogueira e apenas veja o fogo.
 
A possibilidade real de igualar homens a mulheres, pobres e ricos, brancos e negros, dentre outras categorias antagônicas vem inquietando parte da sociedade - aquela que só enxerga o fogo dentro da fogueira. 
 
No que pese o assunto ora pautado, vale lembrar que São João Batista é tido como o patrono das amizades e padroeiro dos que são desconsiderados ou insultados em virtude do credo que praticam. Assim, o mês de junho também é propício para uma reflexão sobre o tipo de fogueira que João acenderia neste ano.