Nicole Tinôco

28/06/2019
 
Cultive a leveza da alma
 
Era noite de quarta-feira, estava cansada e carente demais para encarar a frieza do meu quarto e resolvi, como faço tantas vezes, dormir com meu Gabriel. Acho que a doença nos leva para um lugar estranho, a gente fica mole por fora e por dentro, e tudo o que se quer é um lugar quentinho e um alguém para nos dar um afago, principalmente quando ele vem de um anjinho galego de apenas 12 anos. 
 
A noite foi conturbada, o garotinho resolveu encrencar com algo preso no ventilador do quarto e, resultado, às 3h da manhã estávamos lá, eu e ele, na tentativa de reestabelecer o silêncio e voltar ao sono dos justos. Para uma pessoa insone como eu isso basta para não conseguir mais pregar o olho um minuto sequer. Mas estava tão enfadada pela gripe que, saindo do que me era de costume, adormeci e acordei atrasada às 06h30 da manhã.
 
É isso mesmo, essa hora da manhã já era um pouco tarde para tantas tarefas que eu possuía, levando em consideração que eu e meu filhote moramos em bairros distintos e o trânsito natalense não anda ajudando a qualquer hora que seja. Acordo de sopetão e quando pego o celular, 5 mensagens da faxineira, que já estava à minha espera no ponto de ônibus a, no mínimo, meia hora. E assim começa a correria desenfreada. 
 
Parece uma coisa, quando a gente acorda em horário não estimado a vida desanda. A casa está revirada, não há um copo no lugar, a moça que te ajuda resolve querer que você participe da faxina, a agenda do trabalho não chega no consenso e você fica alí, naquela angústia eterna atrasada para algo que não sabe nem exatamente o que é, mas a única certeza que se tem é a de que é preciso sair de casa! (E não consegue). 
 
Resolvi parar tudo e fazer minhas orações. Se nada se resolve vou pelo menos acalmar meu coração e entregar tudo para os céus. A mensagem que chega: “Calma, dias melhores virão!” Piada. Abro os olhos, pego o abençoado celular, descubro que estou meia hora atrasada para agenda recém-definida e eis que... minha bolsa some! Seria o gatilho para o meu início de desespero matinal. Me aperreei, quis até gritar tipo, “porra Deus, tá de brincadeira né!?” Mas não, mentalizei a coisa de que tudo “ia dar certo”, fiz aquelas orações do desespero tipo “São longuinho, são longuinho, se eu achar essa danada eu dou 3 pulinhos”, e acabei achando a bendita bolsa no carro. Peguei um Uber e enfim cheguei a tempo do compromisso profissional. 
 
Sim, essa cena cotidiana por mim acima descrita deve ser muito comum na vida de homens e mulheres que tem que dar conta de mil e uma atribuições, compromissos e acabam iniciando o dia de forma não programada, famigerados dias de cão! Mas a maneira com a qual a gente encara essas adversidades pode mudar o rumo de todo resto do dia e até das nossas vidas.
 
Não quero e não me permito ser aquele tipo de pessoa “rabugenta”, que só vê o lado ruim. Não gosto de quem só reclama. Tem uma palavrinha que gosto, muito embora tenha caído no rol das não bem-quistas pela sociedade, e é comumente associada à galera “Namastê”. Poderia dizer até que virou um meme, mas não ligo e uso, a fala é minha eu uso como quero. G – R – A – T – I – D – Ã – O. E ela traz tranquilidade aos dias.
 
Seja grato pelos dias ruins, eles te fortalecem. A dor passa, a ferida cura, e a gente cresce. Isso porque não falei dos dias bons, né? Ser grato a algo bom é como comer um brigadeiro devagar, comendo pelas beiradas, se deliciando com cada sabor e ingrediente. Ser grato prolonga toda e qualquer alegria. 
 
LEVEZA DA ALMA
 
Mas quando eu falo de leveza é importante deixar claro que a que procuro é a do “juízo”, tá!? A de corpo é outra história... De dezembro do ano passado para cá perdi aproximadamente 7 quilos, algumas pessoas notaram e me deixaram feliz com comentários que elevam a autoestima de qualquer pessoa. Mas esta não é a regra. Do meu pai à colega de trabalho que me disse esses dias “Nicole é daquelas pessoas que fica bem gorda”, o mais comum mesmo é ver as pessoas reclamando e comentando de forma negativa sobre a circunferência dos seus próprios corpos e dos alheios. 
 
Sei que não sou a melhor pessoa a se tomar como referência. Não sou a melhor das pessoas, e não me julguem, não me levem a mau ou me achem hipócrita, pelo que vou dizer agora, por favor, mas eu simplesmente não me importo com meu peso! Sabe com que me importo? Com meu sorriso. Já tive corpo de modelo fitness (menos haha), com 55 kg e era infeliz. E ouve momento da minha vida que cheguei aos 93 kg e me achava linda, exalando felicidade. Eu juro. 
 
E se for para falar dos corpos alheios, então, nunca me importei com estética perfeita. Quando eu olho para alguém, enxergo a alma, a aura, a energia. Eu me apaixono pelo olhar, pelo sorriso. Ah! Um belo sorriso, esquece. Isso é outra pauta.
 
Voltemos para a leveza. Não esqueço de uma frase da jornalista Leila Ferreira, no livro “A arte de ser leve”, quando ela tratava dessa mesma narrativa de obsessão pela magreza, que dizia “ A gente não pode prestar atenção só nesse peso (físico), porque enquanto isso, a nossa alma engorda assustadoramente”. É isso que queria dizer, andamos mais pesados de alma, cada vez mais carregados de dureza, mau-humor e rancores. 
 
O OLHAR PRA DENTRO
 
Presta atenção aqui comigo. Quantas vezes você sai de casa, o celular na mão e a cabeça no mundo e esquece do simples “bom dia” pro vizinho do elevador, o “olá, tudo bem?” para o porteiro. Comum, não? Estamos tão envoltos em nossas atribuições diárias que não percebemos que são elas que nos engordam, nos adoecem, e nos fazem esquecer do “olhar para o outro” e o pior, o olhar para dentro de nós mesmos.
 
- Olhe pra você, cuide de você, pare de viver apenas para trabalhar, se culpar e se desculpar pelo que não deu certo na sua vida. Leve ela de forma leve! Foi o conselho do meu psicólogo semana passada; Isso é uma tarefa simples? Claro que não. O mundo nos estimula a sermos pesados, só falarmos de coisa duras: trabalho, política, conjuntura, contas.. Corra, corra, você está sempre atrasado! Na hora, na vida, nos seus projetos... Queremos sempre mais, comprar mais, viajar mais, olhando sempre pra frente pro futuro, nesse ritmo desenfreado acabamos por esquecer da dádiva que nos é dada ao nascer do sol todos os dias: o presente!      
 
Sei que o texto de hoje está meio piegas, na pegada que tanto critico de “auto-ajuda”, mas acho que é isso gente, é disso que o mundo está precisando: de ajuda! De vivermos um dia de cada vez, cada coisa em seu lugar, separadas em caixinhas, resolvendo uma por uma diminuiremos um pouco aquele mau que assola 10 entre 9 pessoas: a ansiedade. 
 
Não estou sugerindo aqui nos tornarmos pessoas letárgicas, inertes que ficam deitadas em berço esplêndido esperando a morte chegar. Isso nem combina com a dinâmica da pessoa que sou. Sei que buscar novos projetos, conquistar novos objetivos, não é só importante como é necessário à vida! É sentir que a roda tá girando, é motivante, só não pode ser só isso. Não pode virar obsessão! Viver os novos rumos da vida aproveitando bem as pequenas conquistas, vibrando a cada vitória diária, faz parte do “ser leve”. 
 
No mesmo dia que retratei no início do texto escutei de um colega que trabalha no Governo: “- Como você tá linda, que bom te ver assim, seu sorriso, tá lindo, leve.” Agradeci e apenas sorri. É, papai do céu, acho que estou seguindo no caminho certo. Em um dia que normalmente eu estaria estressada, irritada, pouco minutos após toda confusão alguém me enxergou com leveza. 
 
Posso escolher, carregar minhas dores e angústias e tão somente falar sobre elas ou dosá-las com bom-humor e sorrisos, gentileza e paciência (parte mais difícil). Não, a vida não está nada fácil. O trabalho está corrido, o coração está perdido, a vida está meio assim, vazia, sem graça. Mas sigo sorrindo, estou conseguindo ser leve. E acho que essa é minha pequena atual vitória.