Cefas Carvalho

03/07/2019
 
Sobre mamãe e os ´homens-xícara`donos do mundo nas calçadas
 
Andando na manhã desta terça na Avenida dos Eucaliptos rumo à Avenida Ayrton Senna, dou de cara na calçada com dois homens conversando. E ocupando toda a extensão da calçada. Peço licença e um deles, de maneira bem mau humorada, cede espaço, apenas o suficiente para eu passar e continuar caminhando.
 
Já no Centro de Parnamirim, na Getúlio Vargas, percebo na calçada um homem corpulento, na faixa dos quarenta anos, com as mãos na cintura, ocupando cerca de 70% da área da calçada. Uma senhora que caminhava à minha frente preferiu ir para a rua e o meio fio para desviar do sujeito e não ter que pedir licença. Já eu, passei me esgueirando no 30% de espaço que ele permitia que os outros passassem.
 
Não tive como não lembrar de minha mãe, que partiu em setembro do ano passado e que morou no bairro do Alecrim, em Natal, por quinze anos, tendo com o local, uma curioso relação de amor e ódio. Entre as coisas que a irritavam (o que não era muito difícil, por sinal) era a quantidade de homens ociosos ocupando as calçadas. Para ela o agravante maior era quando eles ainda ficavam de mãos na cintura, formando um V lateral e atrapalhando ainda mais os pedestres. Mamãe os apelidou jocosamente de ´homens-xícara´, referindo-se às ´asas`que xícaras anrtigas tinham para que se pegue nelas sem queimar os dedos.
 
Sarcasmos à parte, é impressionante como aquele velho e supracitado perfil de homem-branco-hétero incorpora com facilidade o papel de ´dono do mundo`. Quando de classes mais abastadas são aqueles que estacionam carrões em vagas para deficientes ou tentam atropelar mendigos. Quando de poder aquisitivo mais humilde, entre outras demonstrações de, digamos, poder, está o de ocupação das calçadas. Basta andar por Natal, Parnamirim, Macaíba, Ceará-Mirim, cidades da Região Metropolitana em geral para se testemunhar homens, em posição de ´xícara`ou não, ocupando as calçadas seja batendo papo furado ou olhando o nada, como se fiscalizando a natureza, como dizem.
 
Atrapalhando com frequência a caminhada de crianças, pessoas com bebês no colo ou em carrinhos, pessoas idosas e de deficientes. 
 
Trata-de de um problema menor em relação aos muitos e graves vividos do país e no RN? Claro que sim. Mas, é um indicativo de como funciona a psique de boa parte do homem médio. 
 
Claro que a maioria absoluta dos ´homens-xícara`, como dizia mamãe, é apenas de marmanjos sem noção do coletivo e dispostos, consciente ou inconscientemente, a atrapalhar os demais. Mas, sabemos bem onde a sensação de ´dono do mundo`pode levar alguns homens, não é mesmo?