Nicole Tinôco

05/07/2019
 
Recomece , ainda que doa!
 
Venho me arrastando na leitura de um livro desde abril deste ano. Não, não se trata de nenhum clássico daqueles que serviriam facilmente de peso de escorar porta em razão da sua espessura. É um livro fininho,  de leitura fácil e leve daqueles que a gente devora numa tarde. Acontece que tem leitura que mexe com a gente tal qual uma sessão de psicólogo, vai nas nossas feridas, “enfia o dedo” diretamente nas nossas dores, e assim como fazemos com a terapia,  acabamos fugindo dela.
 
Comprei o livro “Poesia que transforma”, de Bráulio Bessa, na volta de uma viagem a São Paulo. Tinha ido curar as dores de um coração recém-partido e a leitura me parecia vir a calhar. Tenho mania de rabiscar livro, e é até meio ruim emprestar algo que li, não somente porque ele vem todo fichado, pintado com meus milhares de marca-textos coloridos, o que dificultam a leitura, mas principalmente porque faço do livro um diário, um bloco de anotações extremamente pessoais, deixo recados para mim mesma, me “nino”, me consolo, meu “auto-amparo”. Acho que deve ser um pouco constrangedor ler algo depois de mim, pois eu tenho essa mania feia de desnudar minha alma. Neste exemplar, por exemplo, escrevi na contracapa: 
 
- Você está recomeçando mais uma vez. Dói, mas passa viu!?
 
Não à toa o título deste texto, o principal e mais conhecido poema do hoje global autor Bessa se chama “Recomece”. E foi nessas páginas, ainda no comecinho, paginação 16 ou 17, que eu “empaquei” minha leitura.
 
“Quando a vida bater forte e sua alma sangrar, quando esse mundo pesado, lhe ferir , lhe esmagar... É hora do recomeço. Recomece a lutar!..”
 
Nos últimos dois anos me separei duas vezes, mudei de casa cinco vezes, mudei meu local de trabalho diário, mudança esta que mexe com a logística da vida, transporte, tempo, programação, novos amigos, novos afazeres, nova vida!  Retomei minha antiga profissão (jornalismo), deixei de “stand by” os concursos e por consequência o Direito. Voltei a escrever neste veículo de comunicação que vos fala, saindo de outro portal que levo no meu coração pra sempre, um abraço grande portal Saiba Mais, vocês foram uma escola linda para mim! Mudei de bairro, mudei de estilo, diminuí minha tolerância, a conjuntura política me endureceu, me fechei na minha bolha de esquerda vermelha, restringi minhas amizades, mudei! E ainda estou mudando..
 
Cada mudança é um recomeço e a gente acaba por entender que é clichê, mas é verdade que recomeçamos todos os dias e que de alguma forma independente do motivo todo mundo está sempre recomeçando. Mas não é nada fácil. Esse reinício é doloroso. Tiro pela minha ultima mudança. Faz dois meses que estou na nova casa, e ainda não consigo chamá-la de minha. E olhe que não sou de me apegar não, sou aquela que doa tudo, roupa, móveis, objetos. Não tenho apego a coisas materiais. Guardo cartas, lembranças, mas objetos? Acabo vendendo ou doando tudo. Não tenho quase nada de antigo, relíquias. Gosto de novidade, me desfazer do não utilizado para dar lugar ao novo. Energia parada não é bom, tem que deixar fluir! Mas dessa vez foi diferente. Dessa vez eu não queria. E é isso, como tudo nessa vida, é preciso decidir, querer. Eu simplesmente não queria recomeçar.
 
Não queria um novo amor, não queria uma nova casa, não queria ter que montar tudo “do zero”. Com todas as dificuldades cotidianas eu era feliz e me apeguei à minha vida antiga. Esquecendo de algo que vivo dizendo: 
 
“Apego nunca é bom, nem mesmo a filho! Amar é também deixar ir, seguir”
 
Se eu me escutasse mais minha vida seria tão mais fácil! Mas com perdão do palavrão, que coisa foda é essa de se reconstruir. Juntar os caquinhos. Olhar para as paredes vazias, sem história e ali resolver pendurar um quadro. Escolher onde botar o sofá sem ter ninguém para dividir opinião. Cozinhar para um,  um travesseiro, um prato, uma vida. Mas a vida é uma só e só sua, não é mesmo?
 
Não farei aqui apologia à solidão. Nem tenho paciência para diferenciá-la de “solitude”: ato ou efeito de estar só e bem.  Ah! Façam me o favor, né? Ser sozinho é chato pra caramba. Adoro estar com alguém e não me refiro apenas a relações amorosas, amo meus amigos, e adoro estar em bando (de preferência que eu seja a abelha rainha haha). Mas entendo sim a importância de estar pleno, inteiro, sei que essa coisa de metade da laranja é maior besteira , que a fruta é inteira, cada um que cuide do seu próprio suco ! E para isso é sim importante o seu tempo com você mesmo, lidar bem com a sua individualidade, a sua própria companhia. 
 
“É preciso de um final pra poder recomeçar, como é preciso cair pra poder se levantar. Nem sempre engatar a ré significa voltar.”
 
E nessa de reinícios a sensação de fracasso é bem natural. “Engatar” essa ré muitas vezes bagunça a cabeça. Imagina o que passa na cabeça de uma mãe ou pai de família que está desempregado e tendo que se reinventar para se recolocar no mercado de trabalho? Imagina acordar pela manhã com uma dor no peito tão grande e sem vontade alguma de fazer nada e  ainda sim ter que arrumar forças para decidir fazer algo novo, ter um projeto de vida porque o antigo já não te representa mais. “It’s not so easy my friends”.
 
Conversando com um conhecido esta semana debatíamos sobre a importância da dor, dos dias de “bad”.  Ele argumentava que a vida sem dores seria perfeita, uma total maravilha de dias lindos. Eu discordei e, como falei aqui semana passada, acho que a dor nos fortalece e engrandece, acho que só sabemos o que é bom por que passamos pelo ruim, e mais, loucura ou não da minha parte, acho que é isso que equilibra o universo. Dias bons e dias ruins são o “yin –yang”, os opostos, o dia e a noite,  o bem e o mau, eles botam o mundo no prumo. Viajei né ? 
 
Mas eis que então, decidi que estava na hora de acabar. Tô terminado o livro , já sentindo falta dele que, coitado, andou para lá e para cá comigo, na bolsa, no carro, no café da manhã, nessa minha procrastinação de leitura e de vida. Decidi também que é hora de seguir em frente. Recomeçar é preciso. O ano tá difícil mas chega de sofrer, né ? Segundo semestre chegou e a música que tem tocado em minha cabeça: “desesperar jamais!” Não tem cabimento eu “entregar esse jogo no primeiro tempo”. Já tive muitos desenganos, muito que chorar, mas agora acho que chegou a hora de fazer valer o dito popular: Desesperar jamais !
 
E a partir da minha decisão passei a me sentir mais forte. Reuní grandes amigos e disse a eles como eram importantes, e que precisava muito deles. Disse também a um grande amor o quanto ele me fez bem, o quanto o admiro. Reconfortei quem estava sofrendo mais que eu, e mesmo triste animei quem estava em dor. Enfim, me fortaleci. 
 
Estou reaprendendo, me refazendo. Sentindo saudade gostosa do que foi bom. Sonhando com o futuro, mas sem pressa, ansiedade e sem medo dele. Olhando para os meus erros com cuidado e com a delicadeza de tentar tirar-lhes os pesos que doem e aprisionam a alma. Me perdoando.
 
Deixo por fim o conselho extraído deste poema tão lindo. Que a gente entenda que tudo passa, momentos ruins e bons também. Lidemos com as mudanças sem superestimá-las, dando a elas a importância e o tamanho que elas tenham. 
 
Mantendo a fé em dias melhores, e buscando a força, lá dentro da gente. Mudar dói, recomeçar é difícil, mas é preciso.
 
“...E se um dia lá na frente, a vida der uma ré, recupere a sua fé e recomece novamente.”