Nicole Tinôco

19/07/2019
 
E essa tal reciprocidade...
 
Ontem acordei bem sensível, ando mesmo tão a flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar. Tenho passado por tempos difíceis, mas é mais que isso. Estamos vivendo tempos difíceis. Desemprego, falta de perspectivas, redução de custos, de saídas, de sonhos.. 
 
Tá bem difícil sonhar com um futuro melhor. Todo dia vejo na TV aquelas matérias banais sobre como empreender, como usar a criatividade para ganhar mais, como “juntar dinheiro”. Ô meu povo! Alguém diz pra Ana Maria Braga que segundo dados da  CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) o brasileiro está cada vez mais endividado e inadimplente e que o  volume de famílias que declararam não ter condições de pagar suas contas passou de 9,5% em janeiro de 2018 para 9,1% em janeiro deste ano. Como juntar se tá faltando pra pagar?
 
 Mas para quem ganha num programa diário o que o brasileiro médio recebe durante o ano fica difícil se colocar no lugar do outro, mais fácil culpar a desorganização financeira, a falta de habilidade para enxergar novas saídas, e dizer que a reforma da previdência não vai abalar a quem cuida bem das suas finanças e soube poupar seu dinheiro a partir dos 20 anos. Ah, vai! Com 20 anos a pessoa está é tentando descobrir o que fazer para se encontrar na vida, e aos 30 como eu a organização se dá em: “Qual conta eu pago primeiro pra não cair na exorbitância das nossas taxas de juros?”
 
Mas voltemos à minha sensibilidade exacerbada. Já estava meio “down”, preocupada com a vida, a minha e do nosso país, aí abro o celular para ver as notícias:
 
 “-Governo faz sorteio, a la Mega-Sena, para eleger membros de órgão ambiental” (Sim, isso mesmo, com direito à bolinha branca e apoio da Caixa-Econômica na infra-estrutura).
 
 “Dois estudantes são presos ao agredir jovem por ele ser gay, em Goiânia”, Chega! Não tenho estômago para isso, mais dores! Alheias sim, mas dói em mim. Acho que vou partir para as futilidades do Instagram. Mereço. 
 
Abro a rede da estética, aquela que todo mundo é feliz e bonito e em meio à polêmica da mudança de Zukinho e outra postagem me tocou bastante. Em tempo,  o Insta está mudando sua política de exibição do número de curtidas nas fotos  e a partir desta semana a rede social de Mark Zuckerberg inicia um teste que ocultará a quantidade de pessoas que deram "like" nas publicações para os internautas em geral. Foi o maior alvoroço, cada digital influencer que se posicionasse de uma forma, muitos foram para a linha do “isso é bom pois acabará com a vida plástica em busca de likes”, mas não foi isso que me chamou a atenção.
 
Não que a polêmica não seja válida e interessante. É sim, principalmente para nós profissionais da comunicação que trabalhamos e necessitamos das redes, porém o que apertou meu coração foi mesmo a postagem de um amigo virtual. A gente se conhece porque ele é dono de uma camisaria, e ensaiamos algumas vezes fechar uma parceria em virtude de eu ter uma intensa participação nas redes. Conversamos também uma penca de vezes em nos conhecer pessoalmente, mas nunca rolou. Ele é bem recatado, para não dizer anti-social e eu sempre ando ocupada demais. Mas nos falamos com regularidade, e um dia esse encontro sai. 
 
E porque eu fiquei tão tocada? É que o “amigo”, que nunca se expõe, colocou o rosto nas redes. Já achei isso super estranho por “conhecer” um pouco da sua personalidade, sempre mostrando seus produtos, nunca estando à frente. E mais, falou sobre a avó, família, dificuldades, abriu seu coração e chorou. Chorei com ele, claro. Dentre os vários assuntos que ele abordou, o que fez me render às lágrimas foi sobre a crueldade das pessoas, o peso das palavras, o se colocar novamente no lugar do outro. 
 
Eu não sei exatamente o que fez meu amigo Carcará chorar, (esse é o nome da sua camisaria, pouparei o dele). Mas sei que alguém com palavras duras o feriu. Sei também que as pessoas não costumam se preocupar com o que o outro está passando. Quais dificuldades estão enfrentando antes de tecer rol de críticas ou trazer-lhes mais problemas. Faço uma brincadeira simples e minha com as pessoas que já chegam pedindo ou exigindo algo de mim, seja pessoal ou profissional, no whats app. Falo independente do avançar da conversa: Oi, bom dia. Tudo bem? Como você está?
 
É o poder do se importar. O quão válido e importante é antes de pedir um favor, ou até mesmo cobrar um texto, uma conta, um contato, perguntar primeiro como a pessoa do outro lado da linha está. É dedicar um pouquinho do seu dia a se importar com o outro. Não dói e faz um bem danado. Exercita isso, todos os dias, uma hora fica até natural.    
 
Um dia, no curso de um diálogo acalorado, um namorado me disse que pelo fato de me doar demais, acabo exigindo demais dos outros. Verdade. Outra vez, uma desconhecida no centro espírita que frequento ao me ouvir relatar problemas com meu filho me disse algo parecido: - Desapega, não espera nada, não cria expectativas, que algo bom vem. 
 
Concordo que crio muitas expectativas em torno das pessoas. Porém, não concordo e nem aceito essa matemática do desapego. Quem doa, e sempre doa, não deveria esperar receber. Nessa aritmética de sentimentos o número natural era o de que a gente não se frustrasse, nem necessitasse esperar. Que simplesmente viesse. Porque amizade, amor, parceria de vida ou profissional é rota de mão dupla. É dar sim, mas também tem que ser receber! Senão não teremos relações justas.     
                                                     
Sei que não se mede a vida com uma régua. Que não há métrica, que às vezes você se doa ao trabalho e não é reconhecido. Sei também que tantas vezes se dedica a uma amizade e/ou a um amor e não recebe de volta não por falta de vontade do outro, mas pela razão natural porque ele não conseguia ou não podia.  Mas entendo também que retirada as exceções, o ideal é que houvesse essa tal reciprocidade. Não sou adepta da lógica de Exupéry de que o verdadeiro começa lá onde não se espera mais nada em troca. Estou mais com a sinceridade direta do meu colega jornalista e escritor Caio Fernando de Abreu: 
 
“Muitas vezes eu não tive nada em troca. Então eu me senti profundamente frustrado, porque eu esperava receber alguma coisa.”
 
Espero sim, mas a negativa não me impedirá de doar. Nunca.