Ana Carolina Monte Procópio

05/08/2019
 
NA ESTRADA COM OS POETAS
 
 
 
 
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
NO CAMINHO COM MAIAKOVSKI – Eduardo Alves da Costa
 
O texto acima, tão frequentemente atribuído a Maiakóvski, é, na verdade, parte de uma poesia do brasileiro Eduardo Alves da Costa, que a dedicou ao poeta russo. Nesse poema, Eduardo fala sobre submissão. Sobre a escolha pela servidão que, por fim, tira-nos a voz e já não podemos dizer nada. 
 
Étienne de La Boétie, um jovem francês, em meados do século XVI, discorreu sobre tirania, liberdade e servidão em sua obra Discurso Sobre a Servidão Voluntária. Na época com apenas 23 anos, La Boétie escreveu um libelo contra a postura dos súditos e governados que se submetem mansamente a um senhor, entregando-lhe sua própria liberdade –, a seu ver, o bem maior a ser protegido. “A liberdade, porém, é um bem tão grande e tão agradável, que, quando perdida, todos os males acontecem e os próprios bens que permanecem depois dela perdem inteiramente o gosto e o sabor, corrompidos pela servidão.” Afirmou ele que a perda da liberdade, quando motivada por uma certa mansidão ou submissão deliberada pode ser da mesma forma recuperada, por força da vontade dos administrados, bastando para tanto cessar de servir. O que ele quer dizer quando fala em servidão, o cerne de sua obra mais famosa? La Boétie refere-se à submissão prestada naturalmente a sistemas e/ou senhores que, independentemente da origem de seu poder, o exercem com desrespeito às leis, tirania, crueldade, de forma injusta – com todas essas características ou com apenas uma delas, de qualquer forma é um poder exercido de maneira excessiva. O contraponto da servidão é a liberdade. “Resta, pois, a liberdade ser natural, e, pela mesma razão, na minha opinião, que nós não só nascemos na posse da nossa liberdade, mas também com a obrigação de defendê-la.” Por ser a liberdade a condição natural do homem, resguardá-la passa a ser um dever, uma exigência da própria natureza.
 
Nas esquinas da História em que a mansidão ou estupefação coletivas propiciam um fácil caminho para a usurpação da liberdade e das liberdades, considerada essa palavra em seus aspectos individual e coletivo, é preciso atenção para que não se perca o norte da vida em comum: o direito de ser quem se é e de viver livremente. 
 
Maiakóvski, a quem foram dedicados os versos iniciais deste texto, foi de igual maneira um libertário. Esse poeta foi vanguardista em sua maneira de se expressar, ao introduzir uma fala coloquial ao invés da linguagem rebuscada então usualmente utilizada na forma poética; ao usar temas urbanos e do dia-a-dia em sua poesia; ao falar da vida real, do amor, dos sonhos, do trabalho e do trabalhador; ao retratar os embates, desafio e cotidiano das pessoas comuns. Maiakóvski foi um futurista. Rejeitou o estilo velho, burocrata, e a forma vazia e em vez disso apresentou uma nova linguagem, tanto na apresentação quanto no conteúdo, pulsante e intensa, viva. 
 
“Iluminar sempre, por toda parte
até o último alento iluminar!
O resto não importa.
Tal é o meu lema
igual ao do sol.”
 
E, nesse espírito de manifestação da essência do ser em contraponto a velhos arcabouços formais, não poderia deixar de falar, por certo, do ser humano livre que era o objeto de sua análise e da sua poesia. 
 
“O homem livre – de que vos falo –
virá, 
acreditai, acreditai-me.”
 
Mas é preciso que tal homem livre se faça, construa a si mesmo. Ele não virá espontaneamente, mas sim como fruto de um esforço deliberado nesse sentido.  
 
O poeta e teatrólogo alemão Bertolt Brecht também falou sobre o homem comum, sobre a vida em seu desenrolar diário – porque é no cotidiano, nos atos comuns, que a vida verdadeiramente acontece – e foi um opositor da tirania e defensor da liberdade, resistindo a um sistema de exceção com seus poemas e peças. São dele os versos que dizem: 
 
“Em vez de serem apenas livres, esforcem-se 
Para criar um estado de coisas que liberte a todos
E também o amor à liberdade
Torne supérfluo.” 
(trecho do poema DE QUE SERVE A BONDADE)
 
A liberdade é tão preciosa e vital quanto o alimento, é o oxigênio da vida em sociedade. Sem ela, subsiste um mero automatismo, inerte e submisso, característico de uma massa humana alienada que aceita, que não fala porque não tem mais voz. É preciso não renunciar a ela por nada, muito menos entregá-la voluntariamente a qualquer que seja o poder constituído. Porque o poder somente terá legitimidade se exercido com o devido respeito aos pactos legais, aos direitos e garantias assegurados, especialmente o de viver cada um conforme seu espírito, em estado de idêntico respeito a todos os demais coabitantes de cada espaço político e social. 
 
Para não perder a liberdade, contudo, faz-se necessário defendê-la a cada momento, em resposta a cada ato concreto que, paulatinamente, vai sufocando-a. Porque ela não é retirada de uma só vez, como um golpe visível e chamativo. É aos poucos que se tolhe a liberdade, em pequenas doses, em diários absurdos que acabam por anestesiar o povo. É preciso, pois, uma eterna vigilância, um perene cuidado para que não se permita que a tirania impere e escravize.   
 
Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, 
não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda. 
Cecília Meireles