Cefas Carvalho

07/08/2019
 
Quem acompanha o que eu escrevo sabe que não tenho pendor para resenhas literárias ou cinematográficas, muito menos para academicismos, razão pela qual produzo poucas resenhas. Escrevo de maneira pessoal e passional sobre leituras, filme e peças teatrais que, não necessariamente eu gosto, mas, que me impactam, de alguma maneira, ou várias. Como consumidor de conteúdo artístico, aprecio o que me tira da zona de conforto, me deixa sem chão, o que me incomoda, mesmo. 
 
Dito isso, vamos ao impacto que a leitura dos dois romances de Cinthia Kriemler causaram em mim. Escritora carioca radicada em Brasília, Cinthia lançou além de livros de contos e poesias, os romances "Todos os abismos convidam para um mergulho" (2017, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2018) e "Tudo que morde pede socorro", lançado há pouco mais de um mês, ambos publicados pela Editora Patuá. Quis o destino que eu lesse ambos no espaço de um mês, como um raio que cai duas vezes no mesmo lugar. E causa estragos.
 
Os romances de Cinthia são construídos por mulheres devastadas às voltas com o caos interior, passados traumáticos e o cotidiano problemático a cobrar soluções imediatas. Em "Todos os abismos convidam para um mergulho" temos a protagonista Beatriz, mulher forte, mas traumatizada com o suicídio da filha Laura (não há spoilers, essa informação é transmitida nos primeiros capítulos) e a subsequente separação do marido Bernardo. Entre a culpa que sente pela morte da filha, ela se vê entre uma mãe tóxica e o peso emocional dos casos que ouve como assistente social no serviço público. Sua válvula de escape é o sexo. Sempre com desconhecidos e em lugares estranhos e/ou sujos.
 
A epígrafe do romance dá o tom da protagonista: "Doer, dói sempre. Só não dói depois de morto. Porque a vida toda é um dor" (Rachel de Queiroz). Este conceito perpassa as 260 páginas do romance.
 
Em "Tudo que morde pede socorro", temos uma protagonista igualmente ferida, Leonora, na alma (lembranças da violência que sofria do marido falecido) e no corpo (um braço amputado após um acidente automobilístico). Novamente, nenhum spoiler: Essas informações são passadas no início, para que tenhamos noção da devastação da alma da personagem. Que a própria frase inicial da sinopse na contracapa já denuncia: "Leonora é uma mulher que vive com os seus demônios".
 
Assim como em "Todos os abismos..." este "Tudo que morde..." apresenta a protagonista às voltas com os demônios interiores, um passado traumático e cheio de sombras e também com os problemas práticos dos personagens em volta. No primeiro, as crianças e mulheres agredidas e abusadas por pais e companheiros. Neste segundo, uma adolescente grávida e um jovem refugiado afegão que não consegue esquecer os horrores que viveu. Todos sempre gravitando em torno das protagonistas e aumentando a tensão em que já vivem.
 
Não obstante as semelhanças, a estrutura dos romances é bem diferente. O primeiro se passa em uma cidade grande, o caos urbano ajuda na compreensão da dinâmica da progonista. No segundo, a protagonista se muda para uma cidade do interior de Minas Gerais, Baependi, onde vive em ritmo de cidade pequena e ainda redescobre questões histórico-religiosas, como a saga da escravizada Anna Bonifácio e de Nhá Chica, que foi beatificada. 
 
Em comum entre os dois romances, o controle total da narrativa, primeiro apresentando as protagonistas e suas camadas, até que elas ganhem formato tridimensional. Em seguida, conhecemos o universo e as pessoas que cercam as protagonistas, para então, as tramas terem início e as sombras lentamente começarem a ganhar luz. 
 
Cinthia consegue, no processo de construir protagonistas tridimensionais, vidas, pulsantes, não ter piedade em mostrar, seja em atitudes destrutivas e violentas, seja em frases sutis e subtextos, expondo sem maquiagem e meia luz todas as características - baixezas e grandezas, defeitos e qualidades, idiossincrasias e contradições - das protagonistas.
 
No processo de Beatriz e Leonora de lutarem contra os demônios interiores e externos, pode-se ou não pensar em uma redenção final. Esperança e sentimentos edificantes não fazem parte da narrativa. O compromisso de Cinthia é com a narrativa, a qualidade literária dessa narrativa e com os holofotes jogados (ou retirados) das protagonistas, para que leitores e leitoras adentrem um universo de desconforto, de incômodo, sem, repetindo aqui, uma certeza de redenção e/ou salvação.  
 
Ou seja, vida real. Pessoas reais. este é o material de trabalho de Cinthia Kriemler. Que resulta em uma leitura que impacta ou incomoda. Mas da qual não se pode ou não se deve fugir. Assim como a vida real.