Arthur Dutra

07/08/2019
 
Antigo Hotel Reis Magos: as ruínas que seguram Natal no atraso
 
A acelerada urbanização da sociedade tem feito o mundo repensar as suas cidades para que elas atendam às necessidades humanas. Com a rápida evolução tecnológica e a presença dela nas nossas vidas, fala-se, desde a década de 90 do século passado, em cidades inteligentes, ou smart cities, o casamento entre os prodígios do mundo hightech e a vida urbana com vistas a melhorar o nosso dia a dia em metrópoles cada vez mais conectadas. Isso no mundo, pois em Natal, infelizmente, ainda estamos presos ao passado, agarrados a um lamentável conjunto de ruínas que atendia pelo nome de Hotel Reis Magos.
 
O assunto ganhou a cidade e, embora pareça que há uma divisão equilibrada de opiniões, o que há é uma esmagadora maioria de cidadãos natalenses que quer se livrar da vergonha de conviver com os restos do velho hotel, e uma parcela bem menor que insiste em tentar defender o valor cultural de algo que já quase não se sustenta em pé. A justificativa, dizem os entendidos, é que o Hotel Reis Magos seria um exemplar da arquitetura modernista, sendo este o motivo para que seja tombado pelas instâncias administrativas que cuidam do patrimônio histórico e cultural do país e do Rio Grande do Norte. 
 
Porém, o IPHAN, do âmbito federal, já negou o tombamento, em 2017, ao argumento de que “apesar da contextualização do bem no cenário mais amplo do modernismo brasileiro, sua importância está mais relacionada a questões econômicas e da urbanização local”. Na esfera estadual, o Conselho Estadual de Cultura proferiu parecer, aprovado por 9x1, pela ausência de valor suficiente para o tombamento. A decisão final agora cabe ao secretário estadual de educação e cultura. Não tendo sido deferido o tombamento pela via administrativa, tentou-se o caminho do Poder Judiciário, que disse que não cabe tombamento por ordem judicial. Enquanto não é colocado um ponto final, o prédio, que tem um dono, não pode ser demolido. Além de tudo, como se vê, é mais um golpe no já combalido direito de propriedade.
 
Interessante é que os expoentes dessa arquitetura modernista, como o famoso urbanista Lúcio Costa, projetista de Brasília, não teve o mesmo zelo com outras construções antigas do Brasil, que, para ele, vejam só!, não teriam valor cultural. Segundo reportagem da revista Época (https://epoca.globo.com/ideias/noticia/2015/03/bdemolicao-de-predios-historicosb-foi-motivada-por-arquitetos-modernistas.html), Lúcio Costa e outros representantes dessa escola de arquitetura simplesmente baniram do Brasil prédios históricos como o Palácio Monroe, inaugurado em 1904 no Rio de Janeiro, e que chegou a abrigar o Senado Federal. Mesmo tendo recebido a Medalha de Ouro do Prêmio Mundial de Arquitetura, o Nobel da Arquitetura da época, o prédio, já também deteriorado, foi demolido em 1976, sob os aplausos, o apoio e o parecer técnico de Lúcio Costa. Ou seja: até os modernistas sabiam que não se pode manter de pé na marra os restos daquilo que o descaso já derrubou física e simbolicamente.
 
De tudo isso, fica a triste certeza de que, pelo jeito, ainda vai demorar muito a termos uma definição dessa tenebrosa novela. E não adianta forçar a barra, pois a sociedade é capaz de enxergar que algumas coisas são dignas e de viável preservação, mas outras, como o que restou do Hotel Reis Magos, não. É, portanto, pura perda de tempo arrastar ainda mais essa discussão, pois enquanto isso Natal vai ficando para trás. Podemos, porém, já tirar uma lição, que é a de cultivarmos um sincero e efetivo zelo por nosso patrimônio histórico, o que implica em não deixá-lo sucumbir ao descaso e fazê-lo vivo e eterno, para que não tenhamos que passar, novamente, por semelhante e lamentável impasse.