Rotular (na maioria das vezes) é empobrecer

19/11/2013

Por: Públio José

 Praticamente toda atividade patrocinada pelo homem sofre o fenômeno do rotulismo. Pra onde você se volta, até onde sua vista alcança, os rótulos se fazem presentes. Isso independe de questões culturais, econômicas, sociais, geográficas, existenciais, políticas, ambientais... O homem rotula, carimba, cataloga, nomeia e estamos conversados! Essa atitude o homem cultiva desde os tempos mais remotos. Narra a Bíblia, por exemplo, que no Jardim do Éden, Deus colocou todos os animais diante de Adão para este dar-lhes nomes. E Adão rotulou todos. Não deixou nenhum deles sem nome. Ao lado a atividade intelectual de denominar, sabe-se que Deus assim o fez por uma questão de delegar autoridade, já que, por Sua vontade, depois Dele, Adão seria o senhor do jardim. Fica implícito, assim, que o ato de rotular é também um ato de exercício de autoridade, de escolha, de aplicação do livre arbítrio.

                        Ou por outra: “quero, logo rotulo”. O problema é a veracidade, a autenticidade, o conteúdo do rótulo empregado. Quando se diz, por exemplo, que um político é ladrão, não se tendo a prova real, cabal que dê lastro à afirmação, está-se cometendo um ato de irresponsabilidade, de leviandade – quando não de crime de lesão à honra alheia. E não foi com este objetivo que Deus nos distinguiu com autoridade para rotular. A capacidade de agir por impulso, impensadamente, tem levado a humanidade a cometer injustiças terríveis, com a agravante de que o rótulo, além da injustiça que pode trazer em si mesmo, tem o poder de destruir, de criar famas de características e conseqüências imprevisíveis. Quem foi vítima de um rótulo injusto sabe o sofrimento que tal fato acarreta. O rótulo maldoso e infundamentado é fogo destruidor e quem dele se utiliza torna-se senhor de poder incontrolável.

                        Tome-se o exemplo (e as conseqüências) do rótulo apensado a Getúlio Vargas, pela cúpula udenista, de corruto, assassino e ladrão. Depois de morto, segundo ele próprio para salvar a honra, nada restou provado. O próprio Jesus Cristo foi rotulado de glutão e beberrão pelos seus detratores. Logo Ele! Observe-se, também, o rótulo que vigiu, durante séculos, sobre Dom João VI, de glutão, abobalhado, indeciso, medroso, entre outros epítetos, quando, vê-se hoje, ter sido ele um dos maiores estrategistas do seu tempo, e o real construtor de um país chamado Brasil – de colossal patrimônio econômico e territorial. Foi também o tão mal rotulado Dom João que causou uma fragorosa derrota ao gênio militar Napoleão Bonaparte – sem sacrifício de uma vida sequer – quando transferiu a Corte portuguesa para o Brasil. Também na política, nas artes, basta surgir uma idéia nova que o rótulo é logo providenciado.

                        Modernista, pós-modernista, expressionista, primitivista, barroco, romântico, naturalista... Na política: conservador, liberal, socialista, comunista (este meio fora de moda), esquerdista, monetarista, neoliberal, arrivista, revisionista, reducionista, revolucionário, direitista... Fora os mais agressivos como trânsfuga, corruto, mau caráter, desonesto, infiel, néscio, ignorante – até ao mais sonoro e corrosivo ladrão. Vejam o que é rótulo: ainda hoje, quando se fala em Adhemar de Barros, ex-governador paulista, sua fama de ladrão logo surge. Verdade? Mentira? Dos atuais, Paulo Maluf também é assim designado. O que se observa, na verdade, é que o rotulismo impensado é um ato perigoso para quem o pratica (quando não uma demonstração de pobreza moral e intelectual) e, na maioria das vezes, um ditame a restringir, apequenar, a dimensão da pessoa rotulada e a essência da sua obra.