Potiguares em São Paulo falam sobre a dor e a delícia de morar na Paulicéia

06/06/2017

Por: Cefas Carvalho
Foto: Na imagem, Raivich Alves, José Soares e Gladis Vivane. Fotos: Arquivo pessoal

Com mais de 11 milhões de pessoas e sendo uma das maiores metrópoles do mundo, a cidade de São Paulo atrai pessoas de todo o Brasil, que apesar dos problemas crônicos, do frio em parte do ano, da poluição e do caos urbano se encantam com a diversidade, o tamanho, as oportunidades e a dinâmica da Paulicéia, como chamava o escritor Mário de Andrade. Entre tantos milhões de pessoas, diversos potiguares que, por razões diversas, resolveram migrar de Natal, cidade que apesar dos problemas e do crescimento ainda guarda resquícios de "província" para a gigantesca capital paulista. A reportagem do Potiguar Notícias conversou com alguns destes norte-rio-grandenses que atualmente moram e trabalham em Sampa.

Um deles é o professor José Soares, 53 anos, que apesar de paraibano de Rio Tinto, rumou com dois anos de idade com a família para Natal, onde cresceu.  Soares relata que "antes de ir para São Paulo transferi meu curso técnico da ETFRN para a ETFPE e em 1987 terminei meu curso de Mecânico e resolvi ir trabalhar nas fábricas do ABC paulista. A primeira onde trabalhei foi a Nordon em Santo André, como ajustador mecânico". Mas, Soares já conhecia a megalópole. "Quando estava cursando a ETFPE vim como delegado para os congressos da UBES e vinha para São Paulo, Osasco, Campinas participar de congressos e reuniões do movimento secundaristas", registra.

Já a natalense Gladis Vivane, 34 anos, formada em jornalismo pela UFRN, mudou-se para São Paulo em 2013, "porque eu estava num período de marasmo profissional, querendo ter novas experiências de trabalho e (re)definir outros rumos para a minha carreira. Também queria ter um estilo de vida diferente e queria experimentar o dia a dia de uma cidade diferente. Eu já havia morado em outra cidade por um período mais curto e queria repetir a experiência", registra. Uma mudança sem ter conhecido anteriormente a Paulicéia. "Foi curioso que só havia  passado por São Paulo fazendo ponte aérea, nunca saíra do aeroporto. Não conhecia nada da cidade", diverte-se.

A curraisnovense Raivich Alves, 27 anos, também jornalista, é outra que migrou para a capital paulista. "Posso dizer que a vontade de morar em São Paulo veio muito cedo, ainda criança. Eu era uma criança tímida, que ficava muito em casa vendo TV e lendo, e me encantava perceber como tudo acontecia em São Paulo. Os programas de TV que eu assistia eram gravados em São Paulo, as notícias que passavam nos jornais aconteciam aqui. E eu tinha vontade de viver nesse lugar onde todas as coisas aconteciam".

"A escolha da faculdade de Jornalismo não foi à toa. E na primeira oportunidade, uma excursão da UFRN pra conhecer os estúdios da Globo e da Record, eu vim. Foi amor à primeira vista!", explica Raivich. "A partir dali, comecei a me planejar: precisava acabar a faculdade e juntar uma grana que me permitisse passar uns meses à procura de emprego. Foram quatro anos entre a minha primeira visita/decisão e a mudança", lembra.

Raivich já era iniciada nas nuances de São Paulo. "Depois da primeira visita, em 2010, passei a vir a passeio para shows em média uma vez por ano, sempre economizando por meses, e sacrificando a vida social dos meses posteriores, mas valia a pena sempre", diverte-se.

IMPACTO INICIAL

Em relação ao impacto inicial diante da grandiosidade da metrópole, as opiniões variam. Segundo Soares, mesmo já tendo contato com os paulistas "ao me mudar de vez para o ABC paulista senti muito a diferença, apesar de ser uma experiência muito agradável, pois eu estava em outro lugar e cada dia uma novidade. O que eu sentia era a falta de identidade como tratam os nordestinos, sendo chamados de Pernambuco ou baiano ou Ceará e dificilmente pelo seu nome próprio. Mas, também São Paulo sendo a cidade com o maior número de nordestinos é muito fácil você participar de comunidades compostas por pessoas vindas do Nordeste, ou do Norte. Porém, a convivência com o chamado paulistano da gema é difícil por ser um pessoal bastante preconceituoso com pessoas oriundas das regiões mais pobres do país", critica.

Já Gladis experimentou algo diferente. "Vim morar próximo a amigos que já moravam aqui e residiam em um bairro que gostei de cara. A possibilidade de ter tudo perto de casa, andar a pé e em segurança na rua, me encantou. Nunca tive essa sensação de cidade grande demais ou assustadora. Existem várias São Paulo dentro de São Paulo. Como se cada bairro fosse uma pequena cidade totalmente autossuficiente. Tenho uma rotina aqui que parece cidade de interior às vezes: Conheço o cara da padaria, a menina do restaurante, o carteiro... Ando a pé, resolvo tudo perto de casa, São Paulo sempre foi muito acolhedora comigo", admite.

Segundo Raivich "por eu ser muito adaptável e por ter tido um grande apoio de amigos que já moravam em São Paulo, não senti tanto o impacto. Mas principalmente por ter passado mais cedo por uma mudança muito mais impactante, que foi ter saído da casa dos meus pais em Currais Novos aos 17 anos pra fazer faculdade em Natal. Eu já tinha sete anos de vivência em morar sozinha, e também de uma rotina de sair cedo pra trabalhar e só voltar tarde da noite depois da faculdade, pagar minhas contas, cuidar de casa sozinha, etc. Cheguei aqui à noite, dormi, no dia seguinte acordei e fui passear pelo bairro e já me sentia absolutamente em casa”.

VOLTAR PARA NATAL?

Eles falam sobre como é a vida na metrópole e da possibilidade (ou sonho) de um dia retornar a Natal. Soares registra que "gosto muito de São Paulo pela facilidade de reunir culturas, tendências e apresentar uma diversidade enorme sendo possível na mesma cidade ter encontro com culturas de várias regiões do país e do mundo. Tem bons sebos e feiras de antiguidades, feiras de artes. Uma questão que afastava a pessoa de São Paulo era a violência mas hoje ela se estende por todo o país e Natal que já foi uma cidade tranquila hoje também enfrenta altos índices de criminalidade e violência. Mas São Paulo não tem as praias belas que tem em Natal nem o clima estável de mais ou menos 28 graus e em qualquer hora ou mês... Por isso pelo Beco da Lama pelas poesias, pelas praias, pelo acolhimento do potiguar eu penso em voltar a morar em Natal".

Gladis opina que "está sendo um período de crescimento. Foi desafiador vir para uma cidade sem conhecer nada nem ninguém, conseguir trabalho e mudar de trabalho algumas vezes até abrir a minha própria empresa e construir a rotina que tenho hoje. Eu sempre gosto de pensar que nada é permanente. Ficarei por aqui enquanto me fizer feliz. E adoro Natal, voltaria se sentisse vontade. No momento meu desejo é continuar aproveitando o que São Paulo tem pra me oferecer, mas amanhã tudo pode mudar", ri.

Raivich assinala que “acredito que minha estadia está  sendo bem sucedida. Não pretendo voltar a morar em Natal, só me vejo voltando em uma situação em que a minha família esteja precisando muito de mim. Quando saí de casa a primeira vez falei pra minha mãe "não torça pra eu voltar, se isso acontecer, é porque algo deu errado."

ONDE MORAR

É de praxe entre os paulistanos que um fator para qualidade de vida em Sampa é a (pouca) distância entre casa e trabalho e o fato de residir em um bairro onde se seja identificado. Como assegura Soares, assinalando que "me divido entre Jabaquara e São Bernardo do Campo. Trabalho no Jabaquara e fico a maior parte do tempo nesse bairro. Fui morar em São Bernardo quando trabalhava nas fábricas do ABC e em 1997 passei a trabalhar no Metrô no Pátio Jabaquara do metrô e depois nas escolas do bairro o que me levou a fixar residência também nesse bairro. Nenhum deles foi por escolha de ir morar aqui ou ali e sim por facilidade de ficar próximo ao trabalho".

Como acontece nas grandes cidades, é possível brotar uma relação de amor entre a pessoa e o bairro. É o caso de Gladis: "Moro em Pinheiros e amo tanto esse lugar que escrevo um blog sobre o bairro (Adoro Pinheiros) e alimento o Instagram (@adoropinheiros) diariamente com achados locais. Vim morar aqui porque passei o primeiro mês na cada de um amigo que morava aqui, até encontrar um lugar pra morar. Neste primeiro mês já me apaixonei pelo bairro. Tem metrô, vida cultural pulsante e fazemos tudo a pé. Não precisar de carro é um grande diferencial pra mim! Pinheiros é um bairro muito inspirador para quem trabalha com comunicação. Muitas vezes estou em casa sem conseguir terminar um texto aí pego meu notebook e vou para uma pracinha aqui do lado de casa ou para um café e a inspiração vem. É um bairro vivo, cheio de boas ideias e negócios criativos. A cada esquina um restaurante diferente, uma biblioteca de roupas, um café que cobra por hora, um negócio inovador. É uma delícia”.

"Moro atualmente na Santa Cecília. Não foi pensado, mas com certeza seria um bairro que eu escolheria", diz Raivich. "É uma região central, perto de vários lugares que gosto de frequentar, tem metrô próximo, ônibus pra vários pontos da cidade, então a locomoção é muito fácil. Isso é fundamental para viver em SP, e um dos pontos fortes pra mim, transporte público de qualidade."

E uma questão que não poderia faltar é: quais as principais diferenças entre morar em São Paulo e morar em Natal? Para além do óbvio (tamanho, população, economia), os potiguares opinam. José Soares defende que "Morar em São Paulo nos deixa próximo de várias opções culturais, artísticas, efervescência política, comidas, do Brasil e do mundo e morar em Natal deixa próximo das melhores praias e do melhor clima. Penso sim, eu um dia voltar para Natal”.

Gladis Vivane registra que "a dinâmica de organização das duas cidades é bem diferente. Aqui as pessoas ocupam mais as ruas, enquanto em Natal tudo parece muito longe (apesar de ser uma cidade pequena). O comportamento das pessoas também é diferente - digamos que aqui é tudo super valorizado, enquanto em Natal a gente tende a se subvalorizar. Tem coisas incríveis em Natal que eu não conhecia quando morava lá e só me chamaram atenção quando voltei de férias. Acho que nos acostumamos com nossas rotinas e passamos a não enxergar as singularidades da cidade - que muita vezes é tão charmosa e cheia de possibilidades. Como em São Paulo todo mundo veio de fora e tem gente do mundo todo, as pessoas estão sempre atenta às novidades e celebram tudo com mais intensidade".

Raivich, que registra a existência de uma "comunidade potiguara" em São Paulo ("E bem grande! É bonito ver como, mesmo pessoas que se conheciam só de vista em Natal, aqui acabam se tornando amigos, pra se apoiar) enaltece a relação entre pessoa e transporte. "Conversando com potiguares percebi que alguns reclamam de pegar metrô/ônibus, e outros acham o transporte público daqui a oitava maravilha. Os que reclamam são justamente aqueles que andavam de carro em Natal. O outro grupo é daqueles que andava de ônibus em Natal. Eu me encaixo no segundo. Eu não pretendo ter carro nunca na vida, e viver numa cidade que me deixava dependente de carro me frustrava muito. E eu não morava em um bairro "longe", morava em Candelária, e era uma infeliz usuária da linha 35 Soledade I/Candelária. O bendito passava de hora em hora e se parasse, era uma sorte grande. Além disso, oito horas da noite já estava passando desligado pra garagem. Quer dizer, além de levar cerca de 2h pra chegar ao trabalho no Tirol (um percurso de meros 7km), pra ter uma vida social eu dependia de um amigo que passasse e me desse carona. Para quem não gosta de depender de carro pra fazer as coisas, São Paulo é o paraíso”, finaliza.