Entrevista com Isabela Sancho, que lança livro de poesias dia 27, em São Paulo

19/04/2019

Por: Cefas Carvalho
Foto: Arquivo pessoal
 
Aos 29 anos, a poeta e ilustradora Isabela Sancho se prepara para lançar seu segundo livro, “A depressão tem sete andares e um elevador” (Editora Penalux, 2019) no sábado, 27 de abril, a partir das 17h30 na Casa Elefante (Rua Dr. Cesário Mota Júnior, 277 - Vila Buarque, São Paulo).e já é conhecida do cenário literário atual, tendo, inclusive, seu primeiro livro. “As flores se recusam” (Editora Patuá, 2018) como obra finalista no Prêmio Literário Glória de Sant'Anna, em Portugal, desta ano. Formada em Arquitetura e Urbanismo pela UNICAMP,  natural de Campinas, no interior de São Paulo Isabela concedeu entrevista exclusiva ao Portal Potiguar Notícias. onde falou sobre processo literário, produção, e o fazer poético em dias sombrios. Confira:
 
Você se prepara para lançar seu segundo livro de poesias no espaço de dois anos. Que diferenças existem entre um e outro?
 
O livro “As flores se recusam”, publicado pela Editora Patuá em 2018, é uma coletânea de poemas que escrevi conforme me ocorreram no espaço de dois anos, sem uma intenção específica de unidade – se existir alguma em meio às imagens, que ora se agrupam, ora se afastam, deve ser acidental! Relendo-a hoje, encontro alinhavos possíveis, mas de modo difuso, rarefeito, talvez. Já “A depressão tem sete andares e um elevador”, publicado pela Editora Penalux, consiste em uma sequência de poemas que compõem uma narrativa específica. Há quem o tenha lido e chamado, ao contrário, de “um único poema longo”, o que acredito que também seja uma interpretação possível. De todo modo, nessa segunda obra, cada imagem que se apresenta está lá para participar no sentido central de uma história.
 
Na apresentação, Anne M. A Capelo afirma que “a escrita (do livro) nasceu da experiência da dor”. As poesias são autobiográficas? Os sentimentos de dor e desesperança dos versos foram vividos pela autora ou trata-se de um eu-lírico?
 
Na minha concepção, tudo o que dizemos está impregnado de nós mesmos. Se eu explicar o que me parece que está acontecendo com o Brasil, contar a história do Gato de Botas ou compuser um poema, em suma, colocar algo em palavras, isso necessariamente será filtrado por quem eu sou. Então, sim, há algo de meu presente nesse livro. Mas também há muita criação, que é uma das partes mais divertidas. Gosto de não estar atrelada por completo a mim mesma na escrita, poder encontrar imagens do lado de fora.
 
As poesias não têm títulos, gerando uma longa sequência de fatos e sensações, muitas vezes como um elevador descendo e subindo? Foi sua intenção causar tal sensação no leitor?
 
Há uma estreita relação de verticalidade entre palavra e imagem, que passa justamente por essa sequência, pelas quebras dos versos, e também pelo projeto gráfico que busquei junto aos editores Tonho França e Wilson Gorj. Você pode notar que os poemas sobem e descem na página, em uma busca concreta, literal pelo efeito “altos e baixos”.
 
O conceito do elevador, tanto como metáfora como literal, perpassa todas as poesias e o livro inteiro. Como surgiu a ideia deste conceito?
 
IS: Vivi por mais de vinte anos num dos andares mais altos de um edifício, usando diariamente o elevador. Essa experiência se inscreveu fortemente em mim, aparece com alguma recorrência em meus sonhos. Há dez anos, surgiu repentinamente para mim a frase que me trouxe o título “A depressão tem sete andares e um elevador”. Eu confiei nela e a segui, fazendo dela o ponto de partida para um livro inteiro. As metáforas possíveis vieram a posteriori.
 
É perceptível o uso de termos e climas urbanos (ambulância, estupradores, assaltantes, carro, buzina, rua) em boa parte do livro. A ideia é fazer uma ilação entre caos urbano e males do espírito?
 
É uma hipótese interessante de se explorar, embora eu acredite que aquilo que nos aflige se carrega conosco em todos os territórios que nos colocamos, sejam eles urbanos ou não. Ainda sim, como vivo em São Paulo capital, imagens tipicamente citadinas me invadem diariamente e se fizeram inevitavelmente presentes nessa escrita. Creio que elementos de urgência presentes na metrópole, como as sirenes, por exemplo, me foram úteis na expressão de uma urgência de qualidade interna.
 
As ilustrações intercaladas no livro são suas. Elas ajudam a fazer o leitor “visualizar” os versos? Qual a importância das ilustrações na obra? 
 
Talvez o leitor possa passar sem elas, mas eu não! Saber desenhar é mais antigo para mim do que saber escrever, e eu não tenho uma explicação ao certo para essa necessidade de materializar em imagem o que as palavras já estão se esforçando em dar a ver e sentir. Ainda sim, utilizei uma técnica de lápis grafite sobre papel kraft que, na minha opinião, dá uma atmosfera algo antiga para as ilustrações – a mim faz sentido, se pensarmos que, em certa medida, a narrativa de “A depressão tem sete andares e um elevador” chega a um ponto de precisar revirar as velharias da alma. No mais, há ilustrações como a do chuveiro e a do carrossel que impõem elementos verticais – mas isso quem me mostrou foi a Cláudia Alves, que escreveu a orelha do livro!
 
Como se deu o processo criativo das poesias que formaram o livro? Escreveu-as conceitualmente, como um todo, ou isoladamente para depois se tornarem um livro com uma ideia conceitual?
 
Eu parti de uma estruturação crua da narrativa, seccionando-a em imagens e realocando-as em uma sequência. A partir daí, desenvolvi as imagens em detalhe e voz, com a escrita de cada poema que compõe o livro.
 
Qual sua opinião sobre o uso de redes sociais por poetas? Ajudam a divulgar a poesia?
 
Não encaro a internet como uma vida virtual apartada da realidade, mas como uma verdadeira extensão da vida pública, ou melhor: a internet se tornou em grande medida um espaço público - e um com amplitude inimaginável. Pela internet, a poesia pode viajar com facilidade de São Paulo a Rondônia, a Moçambique.
 
Como observa atualmente a literatura contemporânea? São tempos bons para a poesia?
 
É sempre tempo para a poesia. Algo que tem me maravilhado nos últimos anos é a possibilidade de conversar com alguns escritores vivos - vulgo a literatura contemporânea encarnada – que a meu ver têm a qualidade literária de outros que já se foram e se afirmaram na nossa literatura. Quando era adolescente, imaginava se ficaria eufórica ou perplexa ou falante ou muda se pudesse trocar uma ideia com a Clarice Lispector. Quinze anos depois, tenho alguém como a poeta Mariana Ianelli à mão, ao alcance de uma mensagem. Que bom que posso estar viva com escritores que me impressionam, dividindo um mesmo tempo - um tempo que acontece bem aqui e agora, e que, no esforço de assimilar-se durante, não vive nem morre de passado.
 
Pretende lançar o livro em outras cidades do país? E quais os seus projetos literários para o futuro?
 
A ideia de lançar o livro em outras cidades está no ar. Em junho lançarei minha primeira plaquete pela Editora Primata, e meu terceiro livro de poemas e ilustrações sairá pela Editora Urutau no segundo semestre. Fora isso, tenho um quarto livro pronto em sua escrita e ilustrações, e estou estudando o que fazer com ele para que também venha à tona, logo mais.