Entrevista com a poeta Nic Cardeal, que lança o livro ´Sede de céu`

06/05/2019

Por: Cefas Carvalho
Catarinense de Brusque mas moradora de Curitiba desde 2006,  Nic Cardeal é graduada em Direito e exerceu atividade jurídica por 27 anos junto à Justiça Federal de Santa Catarina e Paraná. Afastada do mundo jurídico desde 2016, dedica-se às letras e aos livros, junto à Mahatma Livraria de Expansão e aos 56 anos, já poeta conhecida pela participação em coletâneas e militância nas redes virtuais, publica agora pela Editora Penalux o seu primeiro livro, “Sede de céu”.  Militante também do coletivo de mulheres escritoras Mulherio das Letras, Nic concedeu entrevista ao Potiguar Notícias, onde falou sobre poesia, militância cultural e política, processo criativo e muito mais. Confira:
 
 
Como foi o processo para reunir as poesias de "Sede de céu"? Trata-se de poesias produzidas ao longo do tempo, ou feitas para o livro e com um conceito a ligá-las?
 
Esse é meu primeiro livro ‘solo’, então resolvi selecionar poemas produzidos ao longo do tempo, creio que escritos a partir de 2015, porque os poemas feitos anteriormente ainda se encontram em estado de letargia, aguardando um novo olhar sobre a palavra. Não são poemas redigidos especialmente para este livro e, de fato, não pensei em algum conceito que os pudesse ligar. Na verdade, acho que foi um processo natural de escolha, digamos que por empatia. Originalmente o título escolhido foi ‘As águas azuis têm sede de céu’, que são dois versos de um dos poemas do livro, chamado ‘Sede de céu’. No entanto, posteriormente, conversando com minha revisora e, por sugestão dela, muito acertada, por sinal, decidi diminuir o tamanho do título, optando por ‘Sede de céu’. Hoje, agora já com o livro em mãos, penso ter sido uma boa escolha, já que a ideia de ‘sede de céu’ espalha-se por todo o livro. Acredito que seja porque tenho em mim, de maneira muito intrínseca, uma espécie de saudade do céu, que em mim volta e meia vira sede, no sentido orgânico da palavra (não o céu no aspecto religioso, mas sim no sentido filosófico...). O poema ‘Sede de céu’, que foi escrito em 2017, quando eu participava do Primeiro Encontro Nacional Mulherio das Letras, em João Pessoa/PB, nasceu em uma manhã enquanto eu olhava o mar pela janela do hotel: ‘Na linha do horizonte/as águas azuis/têm sede de céu’. Observando a tênue linha delimitando o azul do céu e o incrível azul das águas, senti literalmente essa ‘sede de céu’. Sabe-se que o corpo humano é composto por aproximadamente 70% de água, e o peso da água que carregamos no corpo nos mantém no solo. Então eu, água, olhando aquele céu, senti sede da liberdade existente no ar, sede do devaneio, do sonho, ‘da imaginação do movimento’. Como dizia Gaston Bachelard, “a primeira tarefa do poeta é libertar em nós uma matéria que quer sonhar”. Portanto, penso que todo o livro está salpicado desse anseio pela liberdade de céu, por isso o título.
 
 
Como é seu mecanismo de produção poética? Conta mais a inspiração ou a transpiração?
 
Minha produção poética é aleatória, porque a inspiração em mim é muito aleatória. Nunca sento para escrever por um propósito racional, metódico, preestabelecido. É sempre repentino esse sonho - tem de haver algo inspirador que me faça ‘acender a luz’. Gosto muito do que diz Bachelard quanto ao processo da escrita: “Uma página em branco dá o direito de sonhar”. Tudo cabe em uma página em branco. Basta sonhar. Ele também fala: “Eu sou um sonhador de palavras, de palavras escritas”. Acho que sempre tudo é possível de ser objeto de inspiração – até o nada. Coisas de fora ou de dentro. Às vezes tudo junto. Pode ser um respirar mais profundo, uma nesga de Lua desfiada e vazia, uma nuvem esparsa, uma tempestade. Algo que vejo por aí, algum livro lido, algum pensamento perdido. Ou um acontecimento social, político, que me cause indignação, comoção, e eu sinta necessidade de expressar minha angústia, minha revolta, tristeza, desolação...
 
 
Existe alguma obsessão poética que você mantenha, algum tema que perpassa suas poesias?
 
Não considero como uma obsessão poética, mas um tema que sinto perpassar muitas das minhas poesias é o tema da infância, das lembranças da infância. Há também o tema da efemeridade da vida, da curiosidade com o ‘além da morte’, sinto sempre isso muito presente no meu texto, seja na poesia ou na prosa.
 
 
A capa do livro remete a peixes em um aquário. Trata-se de uma metáfora para a condição do poeta atualmente, ou algo ligado à sua própria poesia?
 
Na verdade, a ideia de peixes na capa não foi minha. A arte da capa foi feita por minha irmã, Márcia Cardeal, que é artista plástica e ilustradora, e creio que ela tenha se inspirado no título do livro. Eu gostei muito do resultado justamente porque remete à ideia do título – eu, água, tenho sede do céu – do ar, da liberdade do ar, do devaneio, do sonho, do espírito.
 
 
Você acredita que a poesia, a arte como um todo, tem papel social? Ela pode/deve militar causas, pender para um lado?
 
Com toda certeza! Arte e literatura têm papel social importantíssimo! A poesia, a arte como um todo, não só pode, como deve militar causas, defender oprimidos, minorias, ter papel inclusivo em uma sociedade - jamais excludente. Como já disse Desmond Tutu, “se você é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor”. Acho que esse pensamento diz tudo!
 
 
Como é fazer poesia em tempos tão sombrios (para a arte, inclusive)?
 
Em tempos tão sombrios, confesso que até a poesia custa. Mas há que resistir à desolação, ao desespero, à vontade de parar, de abandonar o barco. Ainda bem que escrever é visceral, não se consegue alcançar o estancar da sangria da palavra por vontade própria. Uma vez, perguntada sobre como é meu processo de escrita, eu disse que em mim a escrita se resume a isto (num poema que escrevi em 2018):
 
          Na garganta
 
Se me perguntares outra vez porque escrevo
 
gritarei contigo todo o meu poema reduzido:
 
Escrevo porque preciso
 
- tenho a alma entalada na garganta
 
e um coração refém dos meus ouvidos –
 
isso é tudo.
 
Ou, seguindo Clarice Lispector, “estou escrevendo porque não sei o que fazer de mim” (em ‘Um sopro de vida’).
 
 
Você é militante do movimento coletivo Mulherio das Letras, que já realizou duas edições nacionais. Qual a importância de um movimento como este e quais os projetos futuros que o norteiam?
 
O Mulherio das Letras, além de ser um movimento, é um incrível ‘alimento’ que nos fortalece, não nos deixa enfraquecer diante das agruras destes tempos difíceis, sombrios, como você mencionou na pergunta anterior. É um grupo literário nacional, com intenção de agregar, revelar, auxiliar mulheres ligadas à literatura (escritoras, editoras, acadêmicas, ilustradoras, designers). Como já disse uma das idealizadoras e organizadoras do grupo, Maria Valéria Rezende, “a ideia é que seja uma forma de congregação de autoras, completamente livre e sem hierarquia.”
 
O Mulherio é um “coletivo feminista literário formado por mulheres diretamente interessadas na expressão pela palavra escrita ou oral”, como registrado nas regras e dicas da página no Facebook, e esse “coletivo é apartidário, mas não é apolítico. Somos unidas na luta pela participação ativa da mulher na literatura nacional, levando em conta os momentos políticos e nossa inserção política na sociedade”.
 
A importância de um movimento como esse é fantástica, e isso já sentimos na pele, nós, que estivemos em João Pessoa/PB (Primeiro Encontro Nacional Mulherio das Letras, em 2017) e/ou no Guarujá/SP (Segundo Encontro Nacional Mulherio das Letras, em 2018), de uma forma ou de outra, pois muitas das nossas inquietações, diante da histórica exclusão das mulheres nos tradicionais espaços literários, têm sido sanadas ao longo destes poucos anos de existência do movimento. Seja por meio de publicações independentes exclusivamente de autoria feminina, seja pelo aumento da participação feminina em concursos literários nacionais e/ou estrangeiros, seja nos debates e discussões acerca do papel da mulher escritora no âmbito educacional e político, nestes obscuros tempos. Além disso, já temos o movimento Mulherio das Letras em Portugal, na Europa e nos Estados Unidos, todos representados por mulheres brasileiras lá residentes e que têm tomado frente em encontros literários naqueles países. Há uma ideologia aí inerente, mas há também, e principalmente, uma prática constante: queremos alcançar visibilidade e, fundamentalmente, igualdade entre todos nós, mulheres e homens, no meio literário.
 
 
Quais seus projetos com o ‘Sede de céu’? Pretende realizar lançamentos em outros lugares do país?
 
Antes que eu chegasse a pensar nisso, algumas pessoas amigas nas redes sociais já sinalizaram possibilidades nesse sentido, para lançamento do livro em Brusque, Porto Alegre, Belo Horizonte e São Paulo. Estou aberta a isso, sem nenhuma dúvida.