Ana Carolina Monte Procópio

03/06/2019
 
Guernica: Um olhar além
 
Ao se olhar para Guernica, o famoso e enorme quadro de Pablo Picasso, a sensação é quase sempre de espanto e estranhamento. Como se entender aquele emaranhado de imagens superpostas em uma composição tão sombria, feita de branco, preto e cinza? Como se enxergar sentido em imagens aparentemente tão terríveis, tão bizarras e gritantes?
 
Sim, Guernica grita. Grita a obra como a tradução calada e delirante do absurdo da dor que a produziu. Guernica é um grito de dor.
 
A pequena cidade espanhola imortalizada por Picasso em um quadro de quase oito metros de largura por três metros e meio de altura tem uma história trágica. No curso da Guerra Civil Espanhola, Guernica foi bombardeada em 1936 pelos alemães nazistas, a partir do consentimento dado pelo ditador Francisco Franco aos também ditadores Hitler e Mussolini de experimentar toda e qualquer arma contra as localidades e as populações republicanas, que se opunham à aspiração monarquista e aristocrática de Franco.
 
O que se deu depois a História conta. O bombardeio de Guernica foi a primeira experiência histórica de extermínio em massa de que se tem notícia – prática que se mostrou exitosa, do ponto de vista dos seus perpetradores, e que se repetiu incontáveis vezes na Segunda Guerra Mundial, tanto por iniciativa dos vencedores quanto dos vencidos de então. A pequena cidade basca de cerca de 6.000 habitantes, bastião de resistência republicana, foi dizimada, completamente destruída e muitos de seus habitantes foram mortos.
 
Daí a dor lancinante que salta aos olhos desde o primeiro instante. As lágrimas penetrantes da mãe segurando o filho sem vida é uma daquelas imagens que não se esquecem e que dificilmente deixam a memória do espectador.
 
Aliás, seja o que for que se sente ao olhar para a imensa obra, o fato é que é praticamente impossível não se deixar afetar por ela. Ali a arte é plena de significado, especialmente o de mover os afetos.
 
A par de ser uma obra de arte das mais significativas do acervo espanhol e especialmente do movimento cubista, Guernica firma-se como uma verdadeira expressão artística com mais razão por ser um manifesto estrondoso contra a guerra, um libelo contra o fascismo ascendente – o quadro é de 1937 –, uma denúncia quase profética quanto ao horror que se aproximava com o segundo grande conflito mundial. E tanto era o repúdio de Picasso ao regime de seu país que ele só permitiu que a obra fosse exposta na Espanha (foi produzida na França) mais de quatro décadas depois, apenas após o fim do regime ditatorial franquista.
 
Ao denunciar o horror da guerra e do extermínio, porém, paradoxalmente, a obra clama por paz. A lâmpada representada na parte superior esquerda da tela refere-se à luz da razão, é um convite para que prevaleçam o humanismo e o racionalismo em tempos de ódio e intolerância.
 
E é essa a mensagem atemporal e atualíssima de Guernica.