Ana Paula Campos

25/11/2019
 
À ESPERA DO PRÍNCIPE BRANCO EM SEU CAVALO BRANCO...
 
 
Durante muitos anos sonhei com a chegada do príncipe encantado, que pela minha experiência leitora de contos de fadas eurocêntricos, deveria ser um homem, hétero e branco.
 
Não haviam príncipes negros e princesas negras nos livros que eu lia, então, muito cedo o peso da realidade caiu sobre mim. Eu não era uma princesa. Por mais que me esforçasse, jamais seria uma princesa. Uma mulher negra, dona de uma risada escandalosa e um atrevimento típico de mulheres independentes. Já meus colegas negros, em sua maioria, preferiam as mulheres loiras e delicadas. Pelo menos era o que a mídia e meu entrono revelavam. 
 
Passei boa parte da minha vida na labuta diária de mãe solo conciliando com uma rotina de trabalho estafante na esperança de um dia me casar com meu príncipe e viver feliz para sempre com o homem que, finalmente, resolveria todos os meus problemas e cuidaria de mim. Foi quando descobri o feminismo negro e as coisas clarearam na minha mente. Ou seria escureceram? Conheci o Movimento Negro no Brasil e intelectuais como Lélia Gonzalez, Djamila Ribeiro, Joice Berth e Carla Akotirene. Sentindo-me representada e fortalecida, compreendi que a vida poderia ser bem mais que simplesmente almejar ser uma princesa presa num conto de fadas. Eu agora poderia sonhar em me relacionar com outras princesas, derrotar os dragões sozinha, administrar uma rede de castelos... O mundo estava em minhas mãos e eu escolhi. 
 
Tornei-me uma feminista negra e passei a militar pela causa. As urgências em denunciar e combater o racismo, levaram-me a criar um espetáculo de contação de histórias de contos africanos, disseminando a leitura e as culturas africanas, combatendo o racismo e preconceito.  Meus escritos de dor e superação nas redes sociais renderam-me o convite para escrever crônicas nesse jornal, contribuindo para o empoderamento de outras pretas. 
 
Eu escolhi! Não quero ser uma princesa nem tão pouco preciso de príncipe ou princesa para ser feliz. Eu quero ser uma escritora, uma intelectual como as que eu tanto admiro e me sentir livre. Quero poder, através da minha voz, contribuir para que outras meninas negras e não negras percebam que elas podem ser e fazer o que quiserem. A decisão não está nos contos de fadas. A decisão está em suas mãos. Decida!