Ana Paula Campos

16/12/2019
 
 
ERA SÓ A NEGADA NO BAILE FUNK
 
 
“São tempos difíceis.” Ouço essa frase com muita frequência. Bem, os tempos sempre foram difíceis para o meu povo preto. São mais de três séculos de escravidão, mas a gente sempre acha que o nosso tempo é o mais difícil.
 
Todos os dias eu vejo na mídia reportagens sensacionalistas reforçando a ideia de que toda tragédia e desgraça acontecem em bairros de periferia. Em bairros nobres da cidade acontecem crimes também, mas as câmeras não estão voltadas para lá. Ora, quase não se vê um negro por lá. Os discursos racistas vão fortalecendo diariamente a crença de que a nossa negritude é perigosa para os cidadãos de bem: os brancos.
 
Essa narrativa serve de respaldo para uma política genocida que legitima as ações dos policiais assassinos. Atiram, depois perguntam! O preto sempre é suspeito. Escondidos covardemente atrás do discurso de que estavam apenas preservando suas próprias vidas, tiram as vidas de outros que já nasceram com o alvo marcado no peito: os negros.
 
A mesma sociedade que se comove pela internet com a morte de crianças negras consente com essa política genocida. São ferozes e mordazes em seus comentários:
 
“Onde estavam os pais que deixaram esses adolescentes irem a um baile funk?”
 
“A culpa é deles! Quem mandou estar em um baile funk?”
 
A culpa se inverte e, assim como no período escravagista, toda e qualquer manifestação cultural negra é vista como algo criminoso e danoso para os cidadãos de bem. Brancos.
 
Para esta sociedade é mais confortável atribuir a culpa às vítimas do sistema do que reconhecer que essas mortes foram fruto da sua mentalidade racista. Um soldado cancela o chamado do Samu às vítimas do baile funk. PMs impedem o socorro e o plano de eliminar o povo preto segue sendo um sucesso. Um negro a menos...
 
Racismo estrutural! Nas escolas o assunto é silenciado. Nas igrejas o assunto é silenciado. Os brancos seguem negando-se a tirar a venda dos privilégios dos olhos. São anos no centro, anos tendo sua cultura reconhecida como válida, benéfica e universal, anos acreditando que estão sendo protegidos do mal. Negros.
 
A comoção é seletiva. O apego à vida é seletivo e enquanto você se nega a ficar cara a cara com o verdadeiro inimigo, ele, o Estado, segue fazendo suas vítimas. Negros...
 
A tragédia deixou nove mortos:
- Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16 anos
- Bruno Gabriel dos Santos, 22 anos
- Eduardo Silva, 21 anos
- Mateus dos Santos Costa, 23 anos
- Denys Henrique Quirino da Silva, 16 anos
- Dennys Guilherme dos Santos Franco, 16 anos
- Luara Victoria de Oliveira, 18 anos
- Gustavo Cruz Xavier, 14 anos
- Gabriel Rogério de Moraes, 20 anos