Ana Paula Campos

23/12/2019
 
Quem tem medo da palavra negro?
 
 
Frequentemente algumas pessoas me questionam de onde tirei a ideia de que sou negra. Eles/as dizem: “Minha filha, não diga isso com você, não. Você é morena.” Recentemente também aconteceu algo que me fez perceber a importância de trazermos essa discussão à tona. Um jornalista publicou a minha foto e o título da reportagem dizia “Mulher Afrodescendente”. Imediatamente comentei que não me defino como tal. Sou negra! Diante da minha contestação, o rapaz me ligou questionando se eu havia ficado chateada, visto que inúmeras pessoas o alertaram sobre o meu posicionamento. 
 
Então vamos lá! Chamar alguém de afrodescendente não é ofensivo. Porém, se considerarmos que a África é o berço da humanidade, não seríamos todos afrodescendentes? Outra questão relevante é o fato de na África não haver apenas pessoas negras, como difunde o nosso senso comum; então, eu poderia ser afrodescendente e não necessariamente ser uma mulher negra, certo?
 
Mas o fato mais relevante nisso tudo é que a palavra negra/o é sempre usada por pessoas racistas para nos ofender e nos atacar, como bem representado na brilhante performance artística intitulada Gritaram-me negra, da sensacional Vitória Santa Cruz (1960). Historicamente, ser negra/o está associado a ser inferior, e tudo que venha dela/e é sujo, maligno, perigoso ou repulsivo. 
 
O escritor Cuti (2010) nos traz a reflexão de que, quando aceitamos o termo negra/o e passamos a usá-lo a nosso favor, a palavra perde seu poder ofensivo e vira motivo de orgulho. Para um racista (e não digo que foi o caso do jornalista), reportar-se a uma pessoa negra como afrodescendente é muito suave e conveniente. Ter que repetir a palavra negra/o com uma conotação positiva mexe com sua tentativa hipócrita de tentar negar a existência do racismo no Brasil.
 
A pedagoga Nilma Lino Gomes (2004), referência nesse debate, nos leva a compreender que ser negra/o vai muito além das nossas características biológicas e da nossa condição de afrodescendente que é histórica, mas não social. Ser negra/o é uma escolha política, social e cultural e, como tal, a palavra vem carregada de ancestralidade e heranças culturais africanas. 
 
Conforme nos esclarece a autora, não devemos falar em raça humana, como alguns ingênuos ou dominadores desejam, uma vez que o termo não explicita o racismo presente na sociedade brasileira que se dá para além dos aspectos culturais de um grupo étnico, mas sim, devido os aspectos físicos das pessoas negras, consideradas inferiores pelos grupos dominantes. 
 
A filósofa Marilena Chauí (1995), corrobora com esse pensamento e adverte que: “dizer que alguma coisa é natural ou por natureza significa dizer, portanto que essa coisa existe necessariamente e universalmente como efeito de uma causa necessária e universal. Essa causa é a natureza. CHAUI (1995, p.367). O que é natural para nós muda de acordo com a cultura na qual estamos inseridos, podendo ser muitas vezes contraditório em uma própria sociedade, como por exemplo ser natural chorar, mas ser inversamente difundido socialmente que homem não chora. 
 
Biologicamente estamos aptos a falar e andar como bípedes, mas tais habilidades precisam ser estimuladas socialmente. Se um indivíduo cresce num contexto adverso como é o caso da personagem Nell Kelty, no filme Nell (1994), que foi encontrada por um médico numa casa isolada na floresta e que constata que a menina fala através de um dialeto próprio, o que na verdade era a maneira de sua mãe se comunicar pelo canto da boca uma vez que sofrera um derrame.
 
Alicerçada pelo pensamento destas autoras e mais ainda pelos estudos dos/as intelectuais que fundaram o Movimento Negro Unificado (MNU), redimensionando a questão racial no Brasil, sigo defendendo o posicionamento de raça negra, como forma de reeducação social e combate ao racismo.
 
Afirmar-se diariamente como negra e negro já é, em si, um ato de militância social, uma vez que, fazendo isso, estamos denunciando o racismo que frequentemente aparece disfarçado, mas que na verdade tenta embranquecer nossa raça e nosso discurso, sob o eufemismo de “morena”.
Então, mais uma vez, prazer. Sou Ana Paula Campos, uma mulher NEGRA!
 
REFERÊNCIAS
 
CUTI. Quem tem medo da palavra negro. Revista Matriz. Porto Alegre- RS, 2010
Disponível em:
http://www.sedes.org.br/Departamentos/Psicanalise/pdf/quemtemmedodapalavranegro_cuti.pdf
 
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. 2 ed. São Paulo: Ática, 1995. Unidade 8 – O mundo da prática. Cap. 1 – A cultura.
 
CRUZ, Vitória Santa Cruz. Gritaram-me negra.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RljSb7AyPc0
 
GOMES, Nilma Lino. Alguns termos e conceitos presentes no debate sobre relações raciais no brasil: uma breve discussão.  In: MUNANGA, Kabengele e GOMES, Nilma Lino. Para entender o negro no Brasil de hoje: história, realidades, problemas e caminhos. São Paulo: Global; Ação Educativa, 2004.
 
Disponível em: http://www.acaoeducativa.org.br/fdh/wp-content/uploads/2012/10/Alguns-termos-e-conceitos-presentes-no-debate-sobre-Relações-Raciais-no-Brasil-uma-breve-discussão.pdf