Ana Paula Campos

06/01/2020
 
Aborto: Sua opinião não muda os fatos, mas os fatos deveriam mudar sua opinião
 
 
Com a chegada do novo ano, são muitas as promessas de nos tornarmos seres humanos melhores para nós e para os nossos semelhantes. Pessoas enchem suas timelines de palavras de amor e compaixão. Em meio a tantas postagens, vejo ressurgir, vez ou outra, o debate nas redes sociais sobre o aborto. As pessoas se dividem entre quem é a favor e quem é contra. Nós, feministas, defendemos a liberdade para o corpo feminino. Nosso ventre não é propriedade do Estado e, portanto, não cabe a ele a decisão de levar ou não uma gravidez adiante. Outro grupo, basicamente de religiosos, argumenta que, segundo a crença cristã, a prática do aborto é pecado e que o feto não tem culpa das nossas más escolhas e da irresponsabilidade da mulher. 
 
Antes de tudo, precisamos lembrar que, durante o período colonial, com a chegada dos navios negreiros que transportavam africanos/as para o Brasil, mães eram vendidas separadamente de seus/as filhos/as, que eram obrigado/as a executar a mesma rotina de trabalho de um adulto/a escravizado/a. Tal rotina iniciava-se antes do nascer do sol e estendia-se até o horário que os senhores bem entendessem. 
 
As senhoras de engenho, cristãs por excelência, eram as primeiras a exigir que as escravizadas abortassem seus/as filhos/as bastardos/as, frutos de estupros praticados por seus senhores, ou mantinham-nos vivos para servirem de objeto de entretenimento para seus filhos. Mas não eram os cristãos os maiores apoiadores da escravidão durante esse período?
 
Ao longo da História, filhas da burguesia também eram encorajadas a interromper a gravidez precoce e indesejada, ou deixar seus/as filhos/as recém-nascidos/as nas portas de conventos, em locais conhecidos como a roda dos expostos, a fim de esconder essa vergonha para a sociedade. 
As mulheres negras são as que ocupam o ranking de baixa escolarização e desemprego, reflexo do regime escravocrata que edificou uma estrutura social racista e excludente. Essas mulheres sofrem para conseguir um emprego e tornam-se subjugadas aos parceiros machistas e violentos que não aceitam o uso da camisinha, dentre outras agressões. Abandonadas pelos pais das crianças ainda no período gestacional, se veem no dilema de trabalhar e não ter onde deixar seus/as filhos/as recém-nascidos/as. A grande maioria, na função de empregada em casas de famílias e sem carteira assinada, padece diante da certeza de ser demitida caso leve a gravidez à frente. 
 
Homens (e aqui recuso-me a chamá-los de pai) abortam todos os dias. São sujeitos que simplesmente optam por seguir suas vidas como se não tivessem nenhuma responsabilidade. Eles se sentem no direito de questionar a paternidade, argumentar que juiz nenhum os obrigaria a ver o/a filho/a, e ainda disparam que já ajudam demais pagando a pensão, isso quando o fazem. Crianças seguem sem afeto paterno e as mães se viram em mil pra dar conta de tudo sozinhas, mas eu não vejo o repúdio geral da sociedade em relação a isto. O que vejo, vez ou outra, porque são casos isolados, são pais sendo homenageados nas redes sociais porque cuidam dos/as filhos/as sozinhos. As mesmas pessoas vociferam para as mães: “mas na hora de abrir as pernas...”
 
Hoje, enquanto escrevo, mulheres estão abortando e isso independe da nossa opinião. Mulheres brancas, ricas e cristãs. Estas conseguem pagar por um atendimento humanizado em clínicas clandestinas e rigorosamente sigilosas. Já as mulheres negras e pobres estão morrendo em clínicas que mais parecem um açougue, por não terem condições financeiras iguais às outras. Para estas, a fala mordaz, inclusive de outras mulheres, é incisiva: “Na hora de abrir as pernas, não se lembrou de usar a camisinha!”
 
Se a luta é pela vida, vale ressaltar o questionamento da filósofa Djamila Ribeiro: “Vidas negras importam ou a comoção é seletiva?” O lugar de não escolha que essas mulheres ocupam a levam a tomar decisões em nome da vida. Da própria vida. Mulheres negras são invisíveis para a sociedade e para o Estado até o momento do tão recriminado aborto. As mulheres brancas também, mas apenas durante o aborto. 
 
Precisamos de políticas públicas para mudar essa estrutura. Como eu disse, sua opinião não muda os fatos!