Ana Paula Campos

03/02/2020
 
ACABOU O NATAL E CHEGOU A CONTA DO CARTÃO DE CRÉDITO
 
 
Logo após o período natalino, circulou pelos grupos de whatsapp um gif com a seguinte inscrição: “Acabou o natal e chegou a conta do cartão de crédito”. Nos meus grupos ele foi compartilhado por homens e mulheres provocando risos em alguns participantes. O que parecia ser apenas mais uma piada me deixou profundamente incomodada. Explico.
O Brasil é o país do meme e da piada pronta. O problema é o teor desse conteúdo. Analisemos a cena em questão: um homem está sentado no sofá e abre o que seria a conta do cartão de crédito. Visivelmente alarmado com o valor acima do aceitável, ele pega a árvore de natal à sua frente e joga naquela que seria sua companheira, como uma clara punição por seus gastos excessivos. Observando a cena, três questões me saltaram aos olhos aqui. 
 
Em primeiro lugar está o fato de uma mulher ocupar o lugar comum de “consumidora compulsiva”. Todas as vezes que vejo piada nesse sentido, a mulher é sempre a protagonista. E por acaso homens não se desestabilizam financeiramente? Essa visão é perigosa porque, partindo dessa premissa, muitos homens assumem o controle sobre a renda familiar, alegando irresponsabilidade feminina para tratar do assunto, confinando as parceiras ao lugar de subalternidade.
 
Em segundo lugar, fico inquieta com o fato de o homem se indignar com os gastos. Bem, é crescente o número de mulheres independentes e que arcam com seus custos pessoais. Devemos satisfação a um homem?
 
Por último, revolta-me a possibilidade de uma mulher ser agredida fisicamente por seu companheiro e, mais ainda, o fato de que isso possa ser encarado como uma piada. É a naturalização dos fatos. De piada em piada, as “verdades” vão sendo repassadas e aceitas socialmente. 
 
“Ah, Ana Paula, mas também você vê problema em tudo.” Será isto mesmo ou nos acostumamos a reproduzir padrões de pensamentos hegemônicos, machistas e capitalistas, presentes na nossa sociedade, sem reflexão? Quando transformamos agressões em piadas, não apenas estamos reforçando como correta tal conduta, como também estamos banalizando as agressões. Sim, porque a agressão vai muito além da física. Manter uma mulher refém financeiramente do homem ou mantê-la sob uma posição difamadora e injusta, também é agressivo. 
 
Precisamos estar atentos e repensar, inclusive, o que dizem nossas piadas. Afinal, é através das representações que fazemos da sociedade que reforçamos determinados estereótipos.