Ana Paula Campos

10/02/2020
 
SÉRIE: MULHERES DE LUTA
THAYSSA: A OVELHA NEGRA DA FAMÍLIA
 
De repente fui tomada pelo pensamento de que sou a primeira e única colunista negra no Rio Grande do Norte. Fiz minhas pesquisas e confirmei. A pessoa com quem eu comentei o fato vibrou como se fosse algo positivo. De certa forma é. Não deixa de ser uma conquista a voz feminina de uma mulher negra ocupar um espaço midiático, historicamente ocupado por homens e mulheres brancos/as. Contudo, este fato exige reflexão: onde estão as outras vozes femininas negras, indígenas e trans que não na coluna de um jornal? Essas mulheres seguem na invisibilidade social, uma vez que nem todos os sujeitos estão autorizados a falar e, assim, suas lutas não tomam notoriedade, apesar de servirem de exemplo para meninas e meninos negras/os, que encontrariam nessas mulheres representatividade e força. 
 
Além disso, considerei que um espaço privilegiado como a coluna de um jornal deveria ser dividido com outros lugares de fala diferentes do meu. Foi pensando nisso que decidi abrir a minha coluna semanal para outras vozes, possibilitando o conhecimento de relatos de vivências e lutas dos quais até posso e devo falar, mas que não teriam o mesmo peso político da voz que ocupa o espaço. Os textos da série MULHERES DE LUTA serão publicados uma vez por mês, trazendo reflexões importantes de outras mulheres sobre o seu lugar de fala. 
 
Hoje vamos narrar a história de Thayssa Matias, de 16 anos, retratando o seu embate familiar para manter os cabelos naturais. Thayssa alisou seus cabelos pela primeira vez aos 6 anos de idade. Ela nem consegue se lembrar de como ele era antes disso. A relação de sua família com seu cabelo nunca foi das melhores. “Me sinto a ovelha negra da família, com todas alisando o cabelo e querendo alisar o meu também”, ela revela. 
 
A ideia de descobrir sua textura natural começou quando ela tinha 13 anos, mas apenas aos 15 anos resolveu passar pela transição capilar. A gravidez da filha a fez desejar manter seus cachos longe de produtos químicos, o que não impediu sua mãe de alisá-los em setembro de 2018, quando ela já estava com 9 meses de gestação. “Ela queria me deixar bonita para o parto”, recorda. Desde então, ela mantém seu cabelo ao natural. 
 
Durante o período de transição, seu namorado desaprovou totalmente a decisão. “Ele ficava falando pra eu alisar o cabelo e deixar grande. Quando eu cortei (ela hoje usa o cabelo curtinho), a gente não estava mais junto. Ele dizia que eu tinha perdido o juízo e que deveria comprar uma peruca”, ela sorri e completa: “Minha mãe sempre dizia que os homens preferem as brancas porque elas são mais delicadas”.
 
Olhares, comentários e palpites são apenas alguns dos obstáculos que ela enfrenta na tentativa de ser ela mesma. “Só agora consigo ver quem eu sou. Minha família me vê como se eu fosse estranha. Meus primos menores estranham meu cabelo e falam na cara. As minhas tias disfarçam e ficam dando palpite do tipo: ah, mas não quer dar chapinha pra ver como fica? Achava melhor ele liso.”
 
É longe de casa, entre amigos/as, que Thayssa renova suas forças, quando se junta aos seus. “Me sinto melhor quando tem gente da minha cor comigo. Sinto-me melhor ao ver um semelhante”, considerando que sua família tem a pele mais clara. “Eles ficam dizendo que puxei à minha bisavó, e o tom que eles usam me faz pensar se isso é bom ou ruim”. Ela afirma que, de modo geral, não sofreu muito preconceito na escola, “além de umas piadas que você aprende a conviver e a repreender”. No entanto, quando se trata de outros espaços como lojas de shopping, a coisa se agrava: “Eu não entro em lugares assim. Evito! Só entro para comprar com o dinheiro na mão. Eles me olham de forma estranha”. 
Atualmente, Thayssa mora com os pais e com a filha de 1 ano e 2 meses, e tenta conciliar o fato de ter que cuidar da filha e estudar, uma rotina exaustiva e desgastante. “Sinto-me abandonada por muitas pessoas, principalmente amigos. Ninguém quer uma menina com um bebê”.
 
Ela hoje estuda em uma escola estadual de Natal e participa de um projeto de combate ao racismo e empoderamento de jovens negros/as criado pela professora de Língua Portuguesa, Marliane Azevedo Costa. Ao descrever sua experiência com o grupo, ela destaca: “Está sendo incrível! A professora Marliane é uma pessoa maravilhosa. O projeto dela me abriu os olhos. Antes racismo e preconceito para mim era normal, mas hoje sinto que devo lutar contra isso”.
 
Para finalizar, ela deixa um recado para as meninas que ainda alisam os cabelos: “Deem uma chance para quem vocês são. Não se escondam atrás de uma chapinha. Tentem ver a beleza natural que seus cabelos têm.”
 
Thayssa Matias é uma mulher de luta!