Ana Paula Campos

24/02/2020
O PERIGO DE UMA HISTÓRIA ÚNICA
 
Se você ainda não conhece os escritos de Chimamanda Ngozi Adichie, sugiro que passe a lê-los. Ela aborda a questão do feminismo negro e da negritude com uma linguagem acessível que nos remete à reflexão. O último livro dela que li foi “O perigo de uma história única”, também disponível como palestra no Youtube.  
 
Na condição de contadora de histórias nigeriana, ela inicia seu relato revelando como passou boa parte de sua infância lendo contos britânicos e americanos. A autora reproduzia em seus escritos príncipes e princesas brancos/as de olhos azuis que comiam maçãs e brincavam na neve. Tudo muito distante da realidade de uma menininha de 7 anos que sempre viveu na Nigéria e nunca saíra de lá. Chimamanda escrevia sobre aquilo que lia nas histórias e aceitava o fato de não se sentir representada naquele contexto.
 
Recordo-me de, quando criança, desenhar com frequência uma casa com chaminé e nela colocar o número da casa na qual eu vivia de verdade. Mas minha casa não tinha chaminé. Eu nunca nem tinha visto uma, a não ser nas ilustrações dos livros que eu lia. Ao desenhar minha família, todos tinham a pele colorida pelo lápis “cor de pele”, bege, apesar de eu e minha mãe sermos mulheres negras. Fisicamente, tínhamos os cabelos lisos, presos em um rabo de cavalo e franja, quando, na realidade, meu cabelo crespo só crescia “para cima”.
 
Durante a minha infância, uma das minhas brincadeiras favoritas era colocar sacos de supermercado nos pés e fingir que estava patinando no gelo, pela garagem. Não importava que eu não tivesse a menor ideia de como é a neve. É isso que as histórias estrangeiras fazem conosco. Passamos a ver as “verdades” dos outros e a aceitá-las como “naturais”. Nós é que somos os estranhos, os diferentes daquele mundo, e precisamos nos adequar a ele. Somos estrangeiros na nossa própria terra.
 
Livros didáticos nos contam as histórias do nosso povo sob a perspectiva de terceiros. Sempre a versão do/a branco/a dos fatos. Quando questiono adultos e crianças sobre o que sabem sobre a África, a resposta é quase sempre a mesma: “fome”, “miséria”, “todo mundo negro” e “fazem macumba”. Falam da África como sendo tão distante de nós.
 
Dificilmente percebem como nossa cultura é afetada por esses povos. Nossos heróis são brancos e da elite; nosso referencial de beleza feminino é a mulher branca, loira, esguia. Aprendemos que a religião válida, universal e benéfica para todos é o cristianismo, e tudo que se contrapõe a isso é inferior, maligno e danoso.
 
Entretanto, precisamos reconhecer que todos nós temos em mente uma história única sobre algum grupo social o qual na realidade desconhecemos, mas com frequência elaboramos pré-conceitos sobre eles e permitimos que nossas ações sejam guiadas por isso. Discriminação. 
 
Uma vez conheci um rapaz por telefone no antigo 145 (sim, eu sou dessa época). Ele morava em São Paulo e me perguntou se aqui no Nordeste tínhamos energia elétrica.  Ele tinha uma história única sobre nós. Os paraíbas.
 
Já parou para pensar que seu preconceito ou, até pior, o ódio que você sente por determinados grupos é fruto de uma história única?
 
Portanto, deixo aqui o meu convite: visite espaços diferentes dos quais está habituado a frequentar, leia mais livros escritos por escritores/as negros/as e indígenas, converse com pessoas fora do seu círculo de amizade. Permita-se conhecer outras versões da mesma história. Quem sabe, assim, daremos um passo rumo ao respeito e à equidade social?
 
Dica de livro: ADICHI, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. Tradução Julia Romeu. 1º ed. São Paulo: Compainha das letras, 2019