Ana Paula Campos

02/03/2020
 
SÉRIE: MULHERES DE LUTA: IASYPITÃ: A INDÍGENA FEMINISTA
 
Hoje vamos conhecer um pouco mais sobre a história de luta de Iasypitã Potiguara, da aldeia São Miguel, na Baía da Traição/PB. Todos nós trazemos um estereótipo de indígenas que remete ao período colonial. Assim, a história de Iasypitã Potiguara é carregada de surpresas, ao menos para nós, que crescemos com uma história única sobre eles/as.
Caçula de cinco irmãs, ela foi criada apenas por sua mãe, que trabalhava fora para manter o lar depois que seu marido a deixou. Como as comunidades indígenas sempre receberam muita intervenção das igrejas católicas e evangélicas em missões que iam até lá, havia uma comunidade religiosa implantada na Baía da Traição chamada Consolação misericordiosa. Muitas mulheres indígenas se tornaram freiras. Com Iasyitã não foi diferente. Ela passou sua infância e adolescência tomando gosto pela missão. Aos 15 anos conheceu a Missão das Franciscanas, com a qual se identificou e decidiu morar no convento até se tornar uma freira. Antes de completar 18 anos, sua mãe mandou trazê-la de volta à aldeia.
 
Ao longo de sua vida, a indígena Potiguara estudou e participou, ainda que por curtos períodos de tempo, de diversos espaços religiosos, mas acabou chegando à conclusão de que as religiões alienam o indivíduo. Apesar de sua formação majoritariamente católica, Iasypitã não se considera como tal e afirma não se identificar com nenhuma religião. Ela fortalece sua espiritualidade através de práticas diárias, acreditando que o divino existe dentro de cada um de nós. “Eu decidi vivenciar uma espiritualidade a qual não transforma o ser divino numa matéria humana, pois isso é muito prepotência do ser humano”, afirma.
 
Iasypitã conheceu a teoria feminista quando estava na universidade, mas logo compreendeu que toda a sua vida foi pautada em movimentos de lutas feministas e hoje reproduz uma fala que é muito comum nas comunidades indígenas: “Não há feminismo dentro dos povos indígenas. Há mulheres indígenas feministas”.
 
Hoje ela participa de um movimento de indígenas composto pelos povos Potiguara e Tabajara, e revela que é possível ver mulheres na condição de caciques e pajés, cujas vozes “são sempre a primeira e a última voz, exercendo uma força gigantesca no nosso povo”. E conclui: “O matriarcado é uma força muito grande na nossa aldeia”.
 
Quanto ao machismo, ela acredita que são manifestações isoladas, em geral, reflexos do contato do indígena com o homem branco, porque na aldeia a realidade é outra.
Mulheres assumem a liderança das suas casas, dos movimentos e as tarefas são bem distribuídas. Ela destaca que quando surgem comentários machistas são de homens que reproduzem os discursos da doutrina cristã, usando a Bíblia como argumento para justificar a submissão das mulheres. 
 
Apesar de todo esse empoderamento, Iasypitã revela que casos de violência doméstica ocorrem, ainda que raramente, pela falta de delegacias e de outros órgãos de proteção à mulher. A Lei Maria da Penha não chega até a aldeia e as vítimas seguem na invisibilidade. 
 
Iasypitã Potiguara é uma indígena bissexual e seus primeiros contatos com um homossexual aconteceu dentro da aldeia, quando ela ainda era criança. Ele sempre foi bem acolhido dentro da comunidade. Ela observou que mulheres lésbicas também tinham a sua identidade de gênero respeitada. Em 2018, ela definiu sua identidade e conversou com seus familiares, sendo muito bem compreendida. A respeito do assunto, ela conclui: “quando há preconceito, em geral, parte da própria pessoa que não se enxerga como homossexual, e não da comunidade”.
 
Para seus ancestrais, a bissexualidade é, na verdade, da transcendência do indivíduo, representando evolução.
 
Iasypitã Potiguara é uma mulher de luta!
 
Conheça mais sobre as comunidades indígenas com Iasypitã Turismo Guiado. 
Acesse: @iasypotiguara