Bia Crispim

06/03/2020

 

Identidades em trânsito

 

O filósofo Guilles Deleuze diz que "o indivíduo não é uma espécie derradeira ou última”. Tenho que concordar com ele. Estamos em trânsito. Desde a concepção até nossa morte, inclusive no pós-morte, estamos. Somos indivíduos em mutação que, o que conhecemos de nós mesmos é um esboço inacabado do canteiro de obras identitária do que imaginamos ser.

Somos nossa própria utopia, somos nossa própria idealização, tão fluídica, tão líquida quanto nosso tempo. (Salve, Bauman!)

Transitamos no tempo, transitamos em corpos (Quantos teremos ao longo de uma existência?). Transitamos em lugares e pensamentos e ideologias. (Tantas que se perdem ao longo do processo de viver).

Já não somos. Estamos!!!

Estamos em mutação (mutações), em transformações, em transições contínuas e vertiginosamente desenfreadas. Cambiamos nossos aparatos tecnológicos como fazemos com nosso estilo de vestir, nossa alimentação, nossa cor dos cabelos e seus penteados...

Mudamos a forma de amar...

Somos sim seres inacabados. Identidades em formação. Estamos em trânsito. Nossas histórias, nossos personagens (os que assumimos, os que admiramos nos livros), nossos passos, nosso ritmo... mudam.

Construímo-nos. Processamo-nos. Escolhemos caminhos. Partimos. Ficamos. Evoluímos ou retardamos. Mas não paramos. Nem na morte. Voltamos ao pó. Nossa física presença transforma-se em uma espectral ausência. (Depois, em esquecimento?!).

Transitamos, não porque deixamos de ser, mas, sobretudo porque não paramos de ser. Somos acumuladores de nós mesmos. Absorvemos o mundo, e já não somos mais o que éramos um segundo atrás.

Somos seres em estado de devir. Seres em estado de mutação, de transição, de transformação.

Se hoje alguém me perguntar:

- Quem é você?

Eu responderia:

- Hoje, sou Bia Crispim, mulher trans.

Sou professora, escritora e ativista.

Hoje eu tenho 42 anos e, ao contrário de ontem, estou me transformando em jornalista.

Quem sou eu? Eu sou uma identidade em trânsito. E você?