Ana Paula Campos

08/03/2020

i

LUTE COMO UMA GAROTA!

 
Ao longo dos séculos a história das mulheres foi escrita por homens. Dessa forma, é inevitável pensar que toda uma ideologia machista e patriarcal estivesse impregnada nesse conteúdo.
 
Levemos em consideração a Bíblia, uma vez que esse é considerado um livro sagrado pela maioria dos brasileiros e fonte de ensinamentos para homens e mulheres. Ao longo do livro, encontraremos o relato de  várias mulheres notáveis, com ou sem marido, tenham elas tido boa reputação ou não (com base nos critérios morais da épca), como por exemplo: Débora, juíza em Israel; Noemi e Rute, estrangeiras; Ester, que ficou conhecida por lutar pelos judeus; Abigail, exaltada sobretudo pela inteligência e Raabe, a prostituta que é contada na linhagem de Jesus. A pesar disso, elas são pouco lembradas e o que prevalece, em um contexto geral nas igrejas, é a tentativa de manter a mulher em uma posição de submissão em relação ao marido. Ademais, crescemos acreditando que Eva teria sido a grande vilã da história, ao induzir o ingênuo Adão a comer o fruto proibido sendo culpabilizada pela expulsão do casal do paraíso. 
 
Analisando a História, é fácil encontrar relatos enaltecendo a coragem e o heroísmo masculino, enquanto mulheres seriam aquelas donzelas indefesas que estão sempre na espera do seu salvador montado em seu cavalo branco. No Brasil, historiadores como Gilberto Freyre e Câmara Cascudo insistiam em manter a mulher negra, por exemplo, no lugar de subalternidade, apenas na condição de amas de leite ou ligadas aos afazeres domésticos na casa grande. Essa “verdade” foi reproduzida nos livros didáticos e assimilada por meninas em todo o Brasil. Passamos boa parte das nossas aulas de literatura discutindo se Capitu havia, de fato, traído Bentinho, quando deveríamos estar discutindo os danos da masculinidade tóxica do sujeito em relação à Capitu e sua postura narcisista e homicida quando planeja o envenenamento do próprio filho, uma simples criança indefesa. 
 
O caráter evidentemente machista, misógino e racista dos livros didáticos, nos fez passar anos das nossas vidas escolares e até universitárias sem questionar a ausência de escritoras, ainda por cima negras, no currículo e lista de livros obrigatórios para vestibular/ENEM.
 
Mediante tantos movimentos feministas e ações pelo Brasil, vale a reflexão: avançamos na perspectiva de representatividade feminina, em especial negra? Vejamos. O Brasil é o 5º país mais populoso do mundo, e nós mulheres somos mais da metade da população. Em contrapartida, mulheres recebem uma remuneração salarial 23% menor do que a dos homens e ocupamos o 5º lugar no ranking dos países com maior número de casos de feminicídio. Se fizermos o recorte de raça e gênero os dados serão ainda mais alarmantes. A mulher negra e a mulher trans ganham menos e sofrem muito mais com a violência física e ideológica. 
 
As igrejas, que deveriam nos oferecer algum conforto e proteção, ainda fazem uso da palavra “Deus” para manter as mulheres sob o jugo do marido, atuando como uma mordaça, silenciando os casos de traições e agressões físicas, morais e emocionais. Dados de pesquisas realizadas por organizações não governamentais, que trabalham no apoio às vítimas de violência doméstica, revelam que 40% das mulheres que se declaram sujeitas a agressões físicas e verbais de sus maridos são evangélicas. Elas também são as que menos denunciam.
 
Nossa luta tem sido uma constante e já avançamos muito na discussão de representatividade, mas ainda falta muito para vencermos esse quadro de desigualdade social. Feministas como Lélia Gonzales e Simone de Beauvoir precisam ser lidas e discutidas nas escolas e espaços públicos. Precisamos repensar como a mulher é apresentada nas propagandas, no cinema e na literatura. É inaceitável que uma escritora da excelência de Conceição Evaristo tenha concorrido à cadeira número sete na Academia Brasileira de Letras e tenha recebido apenas um voto, sendo o vencedor um homem branco. Nada contra Cacá Diegues, mas esse fato só reforça o poder da hegemonia masculina e branca.
Quem foram as mulheres de resistência ao longo da História? A história de quem importa, na verdade? Aqualtunes, Dandaras, Terezas passam invisíveis aos nossos olhos, infectados por essa estrutura racista, machista e homofóbica. 
 
Hoje sou colunista do Jornal Potiguar Notícias. A primeira e única mulher negra responsável por uma coluna semanal. Onde estão as outras mulheres negras? Onde estão as mulheres indígenas e trans que não têm um espaço assegurado nas mídias para relatar suas “Escrevivências” e fazer suas denúncias? 
 
Às mulheres faço um apelo. Não se deixem cooptar por essa estrutura dominante e destrutiva que fomenta a ideia de mulheres como rivais. Mais do que nunca a palavra SORORIDADE é mais do que necessária. Estamos diante de um governo fascista e precisamos nos unir. A fraternidade entre irmãs precisa existir. Todas nós precisamos dar certo. Esqueça a competição e esteja sempre alerta para não reproduzir o discurso machista. Não é nossa culpa, mas é nossa responsabilidade mudar o que está posto. Somos a maioria. Somos descendentes de rainhas, herança viva das sufragistas e líderes quilombolas, mas, como nos alerta Simone de Beauvoir: “Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”.