Valério Mesquita

10/03/2020
NIVALDO E JOÃO: UM DEPOIMENTO
 
 
Afinidades de temperamento entre pessoas de famílias diferentes são bastante comuns. Estudos genéticos e outros fatores científicos diversos explicam o fenômeno. Como não sou do ramo não ouso abordar o tema. Mas, coincidências de vida, de destino, de identidades, são mais difíceis de ocorrer com frequência. Peço permissão ao leitor para citar como exemplo, o que ocorreu comigo e o escritor e ex-auditor do TCE Cláudio José Freire Emerenciano. Ingressamos juntos no terceiro ano primário do Colégio Marista em 1954. Cursamos juntos o primário, o ginásio, o segundo grau e a faculdade de Direito sempre na mesma sala de aula. Como infantes e adolescentes frequentávamos os cinemas de Natal (Cines Rex, Nordeste, Rio Grande, Panorama), festas e farras. Formados, fomos nos reencontrar depois, no jornalismo e na política. E hoje, na terceira idade (que ele não proteste), trabalhamos juntos na mesma instituição: o Tribunal de Contas do Rio Grande do Norte, até nos aposentarmos.
 
Esse fato levou-me a reflexão sobre outro a respeito de dois padres – embora de diferentes gerações – mas de similitudes e coincidências dignas de nota. Refiro-me ao saudoso padre Nivaldo Monte e o seu colega de sacerdócio João Medeiros Filho. Ambos simples, permeáveis, acessíveis, humildes e prestativos. Nasceram em março e no mesmo dia. Estudaram no Seminário São Pedro, em Natal. O sacerdócio dos dois foi exercido na arquidiocese de Natal, além de terem servido como professores na mesma universidade – a UFRN. Dom Nivaldo fundou a Faculdade de Serviço Social e o padre João Medeiros catorze faculdades de Teologia, além da implantação do Centro de Estudos Superiores do Seridó, o CERES da UFRN. Inclusive nesse quadro de iguais funções pedagógicas, ressalte-se as semelhanças de pensamento e ação.
 
Um era magrinho (Nivaldo), já o outro gorduchinho, mas ambos sofridos pacientes renais. Todavia, não estacam aí outras observações que pude captar dos dois servos do Senhor. Quando João Medeiros voltou do Rio de Janeiro para o Rio Grande do Norte a afetividade dos dois, media-se pela extensão e profundidade de gestos e mútua solidariedade cristã. Nivaldo doou-lhe um terreno para a construção de sua casa em Emaús, Parnamirim. O ex-arcebispo tratava o seu irmão na fé com gestos de amizade especial, fazendo questão, certa vez, de presidir a missa de quarenta anos de sacerdócio do padre jucuturuense. Essa afeição encontrava justificativa no fato de Medeiros tê-lo assistido permanentemente no seminário quando das experiências botânicas do seu amigo. A concomitância, a coexistência, a simultaneidade de dois seres humanos, ligados pelas mesmas circunstâncias de vida numa comunhão de fé e de princípios superiores não podem ficar à margem do desconhecimento.
 
Já no entardecer da passagem de dom Nivaldo, ali em Emaús, o padre João Medeiros dedicava uma hora do dia para conversar com o arcebispo. Celebrava todo domingo na capela particular, quando Nivaldo não podia mais presidir a liturgia por motivo de saúde. A biblioteca do acadêmico, constituída de obras cientificas, literárias e teológicas era zelada diariamente e sobre os seus livros conversavam sempre. Nivaldo e João, posso afirmar, contemplaram muitas vezes Deus no silêncio da granja de Emaús. João foi o seu confidente durante a enfermidade, até o momento da partida para o descanso eterno. 
 
E como ritual permanente de uma afeição tecida de fraternidade, identidade ministerial e claridades interiores, toda semana o padre João Medeiros Filho vai à sepultura do seu preletor e benfeitor pedir forças para exercer a sua missão e consignar, sem rebuços nem tibieza, o tributo da gratidão. “Prova de amor melhor não há que doar a vida ao seu irmão”.