Bia Crispim

13/03/2020
 
 
Sobre fakes, pós-verdades, discurso de ódio e falta de educação
 
 
Nos últimos dias trabalhei com meus alunos nas aulas de produção textual o tema fake news. E fiquei bem propensa a escrever sobre isso essa semana, principalmente quando, aprofundando-me no tema, em parceria com meus pupilos, outros conceitos emergiram como acontece com as matrioshkas. Quanto mais discutíamos, mais camadas íamos descobrindo.
 
Que conclusão óbvia e terrível nos deparamos: Fake news é um mal. Nasce de mentes doentias. Serve somente pra destruir, macular, massacrar. Delas brotam as pós-verdades, delas surgem o discurso de ódio, elas alimentam a cultura da desinformação e estabelecem o aparecimento do homo fake sapiens, uma espécime capaz de tomar toda e qualquer mais absurda mentira como uma verdade incontestável e indiscutível. É o homem que sabe demais porque leu na internet, porque recebeu a (des)informação no grupo da família do Whatsapp, porque leu o post do Facebook do grupo político e/ou religioso ao qual pertence.
 
E não adianta vir com essa ciência produzida nas universidades, esse espaço de esquerdistas, de balbúrdia, de plantio de maconha e de construção ideológica doutrinadora. A prova, a pesquisa de mais de 30 anos, o cientista com uma carreira de mais de 5 décadas, isso sim, é uma grande mentira. Mas o que o Twitter, o Facebook, o Whatsapp, oráculos do saber moderno, propagam, sim, é tomado como uma sentença de verdade inabalável. E se vier acompanhada com uma passagem das escrituras autorizando essa verdade, aí sim... Não há o que contestar.
 
Estamos vivendo de pós-verdades, de falácias que de tão absurdas nos provocam um misto de medo, riso e choque. Temos uma terra plana, vacinas que matam ou controlam, essa bobagem de aquecimento global! (Uma banana pro aquecimento global!) E essa avalanche de fakes e pós-verdades que alimentam um crescente e amedrontador discurso de ódio, em que destruir o outro, o diferente, o que não está de acordo com o propagado, essas tais minorias é a meta. 
 
E no meio de tudo isso, vem o Dr. Dráuzio Varella abraçar Suzy. Travesti, detenta, condenada por estupro e assassinato de menor. (Hediondo!!!) E isso basta pra que o ministro da (des)educação desse país mande todos pro inferno (via Twitter, oráculo, lembram?!). Pro inferno a emissora, que veiculou a reportagem sobre a vida das mulheres trans encarceradas; pro inferno o médico, que fez a reportagem e se comoveu com a solidão e o abandono e abraçou Suzy; pro inferno a travesti, estupradora e assassina... As travestis, todas as trans, “vão todos pro inferno!”, esbraveja o ministro, deturpando a reportagem, a atitude do médico e, sobretudo, botando lenha na fogueira: mulher trans é pedófila. (Um bode expiatório sempre é necessário pra alimentar o ódio). 
 
Não estou querendo por panos quentes acerca do crime cometido por Suzy, mas quero que não se acredite em mais essa fake, sobretudo quando constatamos, quando há dados que provam que o maior número de casos de pedofilia, de estupro de vulneráveis ocorre dentro de casa, e o violador é um homem, hétero, próximo da vítima, um pai, um padrasto, um tio, um irmão mais velho, um parente de visita. Peraí... Dados, pesquisa, estudos?! Isso é conversa de esquerdista, de comunista... E a pós-verdade cria raízes e vira a verdade de muitos. 
 
Triste de um país que tem nas fake news sua nova enciclopédia, que tem nas redes sociais seu novo Telecurso, que tem como ministro da educação um mal-educado, que tem nas pós-verdades o alicerce pra construir um lugar onde a Educação já perdeu sua credibilidade e seu poder transformador. (Será? Há esperança no horizonte?) E onde o ódio e a mentira são as armas de destruição de quem não acompanhar os oráculos do saber contemporâneo. 
 
Cazuza, nos anos 80, disse “Ideologia, eu quero uma pra viver”. E hoje eu digo: “Educação, queremos uma pra sobreviver”.