Ana Paula Campos

16/03/2020
 
POSSO OPINAR? NÃO!!!
 
Por ser uma mulher negra acima do peso, com o corpo coberto por tatuagens, unhas em gel compridas e cabelos trançados ou crespos, ou seja, toda moldada fora dos padrões de beleza eurocêntricos, o que não me faltam são opiniões masculinas sobre minhas escolhas estéticas. Os comentários surgem disfarçados de argumentações covardes, do tipo: “Mas eu tenho o direito de opinar...”. Não, queridos, vocês não têm! Uma coisa é a subjetividade e o direito de se relacionar com quem bem entendemos. Outra coisa, bem diferente, é acreditar que vivemos em função de ter que agradá-los e, dessa forma, ficarmos suscetíveis a mudar nossa aparência conforme lhes convém.
 
Atitudes como as citadas apenas evidenciam a sociedade machista e misógina na qual estamos inseridos. Os homens se sentem superiores e, portanto, podem determinar o que é belo e ainda impor e cobrar isto de nós. Quando um homem tenta impor padrões de beleza através de comentários, é porque está convencido de que é ele quem decide. Ele está no centro. Ele tem o poder de escolher quem é bonita e quem é feia; quem é “pegável” e quem não é; quem é para casar e quem é sexo de uma noite só. Discursos como esses não só demonstram a total ignorância dos sujeitos, como também o quanto são violentos e preconceituosos.  
 
Quantas mulheres ainda não compreenderam que todas nós temos nossas diferenças e, rendendo-se ao discurso opressor, submetem-se a cirurgias, dietas absurdas ou até sucumbem numa depressão por não se sentirem aceitas? Não podemos ser classificadas como melhores ou piores pelas nossas aparências e, digo mais, não podemos nem mesmo ser classificadas, porque, quando pensamos em “melhor” ou “pior”, significa que temos um padrão de beleza como referência e que tal padrão é eurocêntrico. 
 
Ao contrário do que a nossa sociedade machista tenta nos impor, vocês, homens, não têm poder algum sobre nós. Nosso corpo emancipado não depende da opinião de vocês. Nós, mulheres, vamos continuar sendo e fazendo o que bem entendemos, e isso inclui decidir com quem queremos ficar, quando e como. Ah, e quanto à opinião de vocês? Engulam!