Bia Crispim

20/03/2020
 
O que uma pessoa trans pode ser?
 
 
Iniciarei a coluna de hoje respondendo a pergunta que dá título a esse texto: 
 
- O que uma pessoa trans pode ser? 
 
- O que ela quiser. Basta que ela tenha a oportunidade de se qualificar e a chance de ingressar no mercado de trabalho. 
 
Parece bem simples, não é mesmo?!
 
Porém, num país onde mais se matam transexuais e travestis no mundo, onde a expectativa de vida dessa população é em média de 35 anos e onde a possibilidade de mais um dia na tentativa de sobreviver leva, no mínimo, 90% delas à prostituição não é tão fácil assim.
 
Numa conversa com a amiga Leilane Assunção (In memoriam), num momento muito delicado de sua vida, ela me disse que havia várias maneiras de se matar uma pessoa trans, entre elas tirando-lhe a dignidade de trabalhar, de ocupar espaços laborais iguais aos de todas as outras pessoas cisgênero, tirando-lhe o direito de ser cidadã. 
 
E onde tudo isso começa?
 
Começa na família que expulsa seu filho ou filha de casa ainda adolescente por ele ou ela ser LGBTQI+. Que prefere ter um filho morto a um filho gay ou a uma filha lésbica. (Imagina se for uma pessoa trans?! Eis o primeiro impacto da rejeição.)
 
Continua na escola, onde o bullying e a violência da incompreensão diária terminam por expulsar a pessoa trans do contato com o universo do aprendizado formal. (A escola não está preparada para atender e entender a diversidade de gêneros que nela chega.)
 
Desenvolve-se na sociedade civil que estigmatiza essa população de doente, de anormal. (Anormal é não perceber que nenhum de nós é, e nem devemos ser iguais.)
Hostilizadas, sem formação e abandonadas à própria sorte, o que lhes resta?
 
SOBREVIVER! SUBSISTIR! E para isso, a prostituição, o tráfico, o roubo... e aí, criam-se os estereótipos marginalizados, sobretudo, na figura das travestis.
 
Quem irá empregar alguém sem qualificação? Que empresa colocará em seu quadro uma pessoa que traz para a entrevista de emprego o currículo de anos de prostituição? Que escritório ou loja dará uma chance a alguém que tenha roubado?
 
E se a pessoa trans teve família acolhedora, estudou, é “aceita” socialmente, nunca se prostituiu, muda alguma coisa? 
 
Nem sempre. Falo por conhecimento de causa. Quantas portas não foram fechadas na minha cara, quantas empresas nem sequer me chamaram para uma entrevista de emprego quando viram minha foto no currículo, quantas situações constrangedoras eu não já passei. Já fui demitida de uma empresa porque a nova gestão me comunicou que eu “não fazia o perfil desta escola.” E com uma sensação de ódio de mim mesma e ódio do mundo e de seu preconceito, fui pra casa e chorei, me revoltei, ameacei, tornei-me agressiva e como alguém que percebe que não tem importância nenhuma, resignei-me. Mas “eu não aguento a resignação.”, como disse Clarice Lispector numa crônica de 1967. E assim como a mitológica Fênix, eu me reergui e como Clarice não aguentei a resignação. Fui buscar, na minha família, a força que eu precisava para recomeçar.
 
Contudo, o que ocorre com a mulher trans ou o homem trans que não tem para onde voltar, que não tem a quem recorrer?
 
Há muitos desafios para serem vencidos. E o primeiro deles está no acolhimento da família. Depois, na escola, que deve se preparar para a compreensão e o desenvolvimento adequado do(a) aluno(a) LGBTQI+. 
 
A educação é o primeiro passo para uma mudança na sociedade. E essa sociedade precisa entender que, independente de nossa aparência, independente de questões estéticas ou de comportamento, toda mulher ou homem trans têm a capacidade de desenvolverem quaisquer atividades no universo laboral. Para isso, oportunidade de qualificação através do estudo, da formação; abertura de postos de trabalho para que nós possamos mostrar nossas potencialidades, e RESPEITO ao ser humano que nós somos. 
 
È importante assinalar a necessidade de se pensar também em políticas públicas destinadas a essa parcela da população para que as oportunidades e as chances reais possam acontecer de direito e de fato. Família, escola, sociedade e poder público podem mudar realidades.
 
Uma pessoa trans pode ser o que ela quiser!
 
Se há alguma pessoa trans, sobretudo mulheres trans e travestis, me lendo nesse momento, eu pergunto: “O que você quer ser”? E aconselho: “Qualifique-se e mostre que travesti não é bagunça”!