Ana Paula Campos

23/03/2020
 
QUE DEUS É ESSE? 
 
 
Seguimos para uma consulta de rotina à ortopedista de Giovana, minha filha. Depois de uma cirurgia em cada fêmur, eu comecei a pensar que o pior já havia passado. Minha irmã até brincou, dizendo: “Ainda bem que Gigi só tem duas pernas.” Mas aí tem os joelhos...
 
A ortopedista me diz com expressão de tristeza: “O joelho de Giovana está crescendo para dentro em decorrência da primeira cirurgia. Caso ela não opere agora, com pouco mais de 40 anos, terá problemas de artrite e artrose, o que dificultará sua locomoção”. Segurei o choro... Giovana perguntou mais uma vez com voz embargada: “Vou passar por tudo de novo?!”, e eu não soube o que dizer...
 
Ainda atordoadas com a notícia, entramos no Uber. O motorista era um evangélico. Perguntou quem estava dodói ao ver Gigi com as muletas, então quando expliquei o caso, foi o caminho todinho me contando passagens bíblicas. Ao ouvir que sou agnóstica, fechou a cara e disse rudemente: “Mas você sabe que tudo isso que você está passando é porque não é temente a Deus, né?”
 
Que Deus é esse dele que pune e castiga?! Minha filha só tem 10 anos e está indo para sua terceira cirurgia, além do problema de surdez que ela tem. Se é castigo, provação, ela merece isso?! O que fizemos de tão grave assim?
 
No budismo, dizem que uma situação se repete na nossa vida quando não aprendemos a lição da primeira vez. Qual lição eu perdi?! 
 
Ao dividir minha angústia com amigos/as e parentes ouvi algumas frases que me levaram às mesmas reflexões: “Tudo que está acontecendo tem um propósito”, “Deus quis assim”, “aceite, é a vontade de Deus”, “cada um tem seu carma”. Custo a entender que Deus é esse. Pode ser só um momento de revolta por ver o sofrimento de uma criança que foi dormir muito mais de meia-noite chorando e dizendo que está com medo do que virá.
 
Giovana é meu divisor de águas. Sou um ser humano antes e depois dela. Tenho aprendido a ser mãe e ser melhor a cada dia. Forte? Sou, mas estou cansada, com medo, e o que posso fazer? Simplesmente aceitar? Essa sensação de impotência assusta e dilacera o coração. Não posso simplesmente deixar o destino da minha filha nas mãos de um ser sem ao menos saber a razão de tudo isto... 
 
Uma amiga querida católica, praticamente minha irmã, disse assim: “Não quero dizer nada religioso para você porque sei que você não tem religião”. Em lágrimas só pude pedir: “Diga! Diga qualquer coisa que me ajude a ajudar minha filha!” Penso que a religiosidade surge daí: dos nossos medos, do nosso cansaço. Precisamos nos agarrar a alguma coisa ou a alguém para seguir firmes na batalha. Como uma mãe que vê o sofrimento da filha e que está cansada, por um momento me esqueço de que sou agnóstica e peço à Maria e à Yemanjá, que Gigi tanto respeita e adora, que cuidem da minha pequena.
 
A vocês, amigos e amigas de religiões distintas e até sem credo, eu peço: rezem, orem, meditem, emanem energia de luz, nos abracem porque, na verdade, estamos todas com medo.