Alfredo Neves

24/03/2020
Ana Selma Galvão – da transformação do papel maché, papietagem e papéis colados em arte sustentável
 
  A artista plástica e artesã Ana Selma Galvão é natural da cidade de Mossoró no Rio Grande do Norte. Reconhecida nacional e internacionalmente, é detentora de diversos prêmios, dentre eles o de melhor artista visual de 2013. As suas obras são inspiradas e criadas com visão na sustentabilidade, onde o reaproveitamento de reciclados transforma objetos descartados em brilhantes obras de arte. Sendo também pesquisadora, Ana Selma tem orientado alunos e diversos segmentos sociais como reaproveitar e tornar o meio ambiente mais saudável, visto que boa parte das pessoas ainda não se habituaram ou não adquiriram boas práticas na destinação dos materiais com visão moderna de responsabilidade social, permitindo, com essa prática danosa à natureza, um certo desequilíbrio ambiental.  
 
São muitos os projetos premiados da artista contemporânea, mas tenho dois como os mais fascinantes: Brasil – Origens do Futebol Arte (2012-2014), produzido de forma intensa, que envolveu pesquisa e apoios de designers gráficos, economistas e crítico de arte. Este trabalho foi exposto em diversas cidades do RN e Lisboa em Portugal. O outro, não menos importante: Origens Nordeste Brasil (2011), com destaque para os traços sociais e antropológicos do nosso modo de ser, da cultura e costumes da região nordestina. Também com exposições no Brasil e Porto em Portugal. Todos com a técnica de papietagem e papel machê.
 
Há outros feitos da artista, e antes de prossegui-los cabe destacar que as técnicas utilizadas não são tão novas, há muito que artesãos em todo o mundo utilizam os descartes para a geração de magníficas obras de arte. Originado na China no sec. II AC, o papel machê ramificou-se rapidamente para vários países da Europa, com maior destaque para a França, onde assumiu variantes etnológicas como papier maché, ou no bom português, papel amassado, moído, picado e adicionado a água e misturado com cola para a sua cimentação. Este, com o processo, cria-se as condições necessárias para a produção de formas só possíveis nas mãos dos experientes artesãos. De forma lúdica e com treinamento, alunos e pessoas de todas as idades podem aprender e desenvolver objetos com o aprendizado aprimorado. 
 
Outra técnica, trabalhada em conjunto, e quase idêntica ao papel machê, é a papietagem. A papietagem, no entanto, aguarda os moldes do papel machê, bisnagas cheias, baldes, jarros, cadeiras, portas, vasos, etc. e recebem os papeis rasgados e colados sobre o molde até que o artista cesse quando entender que o formato desejado atingiu a sua característica imaginada. A papietagem foi vastamente abraçada pelos amantes desse estilo artístico por volta do século XVI, como prática na confecção de cabeças de bonecas.
Ana Selma Galvão a cada momento tem a sua arte aprimorada e admirada pelos críticos de arte. Da papietagem ao papel machê, as suas telas em tecido e gesso, compensado, triângulos, quadrados e círculos ganham novas técnicas e, com a utilização de papéis colados ou papier collés, a contemporaneidade, o modernismo e a arte conceitual enriquecem o resultado da sua criação inventiva com obras de resultados sublimes.
 
As técnicas são bem parecidas, mas cada uma apresenta estéticas bem próprias. Vale ressaltar, então, o conhecimento da artista sobre o estilo utilizado em suas obras, tanto como artesã e notadamente como artista plástica. A respeito do papier collés, ou papeis colados, foi a partir do ano de 1912 que a técnica atingiu o seu apogeu e maior notoriedade com a divulgação do pintor cubista George Braque (1882-1963) e Pablo Picasso (1881-1973), o maior ícone do Cubismo. Picasso recorreu diversas vezes a este artifício técnico, não só utilizando embrulhos, jornal, fragmentos de papéis, mas também sobras de cadeiras, de molduras velhas de espelhos, etc. “A Evolução do Cubismo prestava-se, aliás, a essa nova técnica: nada de arquiteturas complexas, linhas entrelaçadas, pequenos toques minuciosos, cor monocromática, mas superfícies planas, largos “aplats”, tons mais claros, mais vivos”. (Frank Elgar, In: Dicionário da Pintura Moderna (1989), p.249). 
 
Nas galerias com exposições de Ana Selma Galvão pude ver de perto e analisar como a colagem de papéis e outros objetos em telas de diversos tamanhos e modelos, sublimaram com maestria a técnica de papier collé sobre as mesmas. A artista há mais de vinte anos está envolta neste sonho possível, que é o de tornar o mundo exterior mais bonito e repassar isto em suas telas para os olhares atentos dos visitantes de lugares e países distantes.
 
Ana Selma Galvão afirma que a sua inspiração vem das cores e da alegria do povo brasileiro. O trabalho, apesar de ser cansativo, é compensado pela delicadeza no seu resultado final que inicia num processo de pesquisa sobre a transformação de materiais através da técnica de papietagem e papel machê. 
 
Podemos ver de tudo na Galeria ou onde Ana Selma Galvão expõem, desde flores de plástico, esculturas, plaquinhas e inúmeras obras de arte que estão espalhadas por diversos espaços do Rio Grande do Norte, no país e em cidades do mundo. 
 
Os seus projetos, ancorados na cultura da sustentabilidade, têm se firmado em escolas e comunidades. Os mais importantes são: o projeto sem vendedor @praiashopping e @florjambopium localizada na @viladasflorespium. Este do Vila das Flores tem como proposta um projeto de artes em uma casa com garimpos de móveis e reaproveitamento de materiais como papel e o plástico e, uma vez por mês, ocorre uma exposição para 25 expositores de diversas vertentes. O público ali se depara com peças produzidas com o material em descarte na natureza como plástico, o papel e peças de garimpos antigas e customizadas com um olhar moderno e colorido, incentivando as pessoas a preservarem o meio ambiente de uma maneira divertida e atual.
 
Enfim, Ana Selma Galvão, que de Mossoró veio para Natal desde criança, e fazendo desta o seu segundo berço, é uma artista consagrada e premiada. Da Comenda Deífilo Gurgel em 2018, ou o Troféu Cultura Dosinho em 2014 e a menção honrosa do maior Salão de Artes do RN, que é o Salão Dorian Gray de Artes, a artista está no mais elevado pódio dos gênios das artes plásticas do RN. Como ela mesma afirma: “Trabalhar com a reciclagem e o papel é uma paixão. A gente começa a se interessar, a colecionar, a manusear e a abrir um leque muito grande de criação”.