Bia Crispim

27/03/2020
 
WAR
 
A casa dos meus avós, em Cruzeta/RN, é (pois ela ainda existe, apesar de meus avós já estarem em outro plano) uma dessas casas antigas de quarteirão inteiro. Enquanto sua frente dá para a rua, seus fundos se abrem para o açude, onde meu avô e tios pescavam. 
 
Em metade do terreno está a casa, na outra, um muro cheio de plantas frutíferas e canoas velhas suspensas em cavaletes transformadas em hortas. Lembro-me que havia as lebres e as galinhas que se desesperavam comigo e meus primos que, quando crianças, tocávamos o terror naquele País das Maravilhas. 
 
Durante o dia, subíamos em árvores, comíamos frutas colhidas ali mesmo, acabávamos com as flores de agrião das hortas de vovô, só pra ficarmos com as línguas dormentes, e maternávamos as lebres com seus olhos vermelhos e orelhas cor de rosa.
 
Porém, à noite, não havia luz no muro, e do alpendre onde ficam a cisterna, as caixas de abelhas de vovô e o fogão de lenha da minha avó, deparávamos apenas com uma escuridão profunda, se não fossem noites de lua cheia. E dessa escuridão emanava um medo, medo pavoroso, medo infantil de bichos-papões e Cucas. Uma sombra nos espreitava do muro, nos encarava e nos punha pra dentro de casa com aquela sensação de estarmos sendo observados, esquadrinhados e amedrontados por um ser que não sabíamos. Um rei do reino da escuridão.
 
(...)
Anos se passaram, hoje eu tenho 43 anos, mas aquela sensação carimbou-se em minha memória de forma tal que o mesmo frio no estômago, o mesmo medo, e os mesmos olhos me encaram do muro, impulsionando-me a permanecer dentro de casa, embaixo dos lençóis.
 
Vivo hoje a mesma impressão de que há algo diabólico e sombrio pairando, não mais no muro dos meus avós, mas no mundo. Um ser infinitamente perigoso e letal, capaz de me arrastar pra escuridão profunda, no meio das árvores e das hortas, para um buraco frio, sem fundo e sem ar, em que retornar não é uma possibilidade.
 
Meu medo de criança tornou-se meu medo de adulta. Aquela imagem obscura, transferida de uma época e de uma imaginação fértil e infantil, materializa-se agora numa realidade de isolamento e números crescentes de infectados e mortos. O rei do meu medo pueril apresenta-se com uma coroa, corona. 
 
Imperioso e bravio, silencioso e letal como um bom estrategista de guerra, ele vai conquistando territórios, dia a dia, mais e mais, como num jogo de War (brinquedo também de uma infância já ida), ocupando partes do tabuleiro-mundi sem pedir qualquer tipo de autorização.
 
Estamos em guerra, WAR!, não conhecemos bem nosso adversário e estamos perdendo, por enquanto.
 
Nosso front de batalha, nossas trincheiras são nossas casas, são nossos abraços não dados, são nossos beijos virtuais, é nossa solidão e desamparo, é nosso “angustiar-se” sozinhos, é nosso choro ouvido por cada um de nós, solitariamente.
E enquanto nos isolamos, há outros soldados pesquisando, estudando, observando, procurando os pontos fracos desse rei inimigo, encontrando estratégias de domá-lo, de freá-lo nesse grande tabuleiro de War. E há outros que, mesmo temerosos, cuidam, resgatam, estabilizam, acompanham e salvam. (Não todos, mas todos que seus incansáveis esforços permitem).
 
(...)
Na infância, eu não consegui vencer o rei do submundo escuro do muro, pois era criança demais e sozinha para enfrentá-lo, mas agora acredito que venceremos, pois já não sou somente eu. Somos um exército, e já estamos nos armando com nossas particulares, solitárias e também comuns estratégias. 
(E não são com boas e inteligentes estratégias que ganhamos uma partida de War.!?)
 
No final desse jogo, sairemos vitoriosos e carregados de mais sabedoria e empatia. O mundo será um lugar melhor, (assim espero!) e esse medo será uma memória como o monstro do muro.