Valério Mesquita

30/03/2020
 
ZÉ DISTINTO OU ZÉ FRADINHA
 
 
Dois nomes numa só e inconfundível pessoa. Em ambos a cara de Macaíba. Macaíba dos anos 30, 40, 50... No seu rosto uma saudade suspensa no ar de tempos idos e vividos. Ele era uma enciclopédia ambulante da ascensão e queda da fauna e fausto da cidade. Conviveu com ricos e pobres e de todos carrega estórias de fatos que marcaram épocas. 
José Figueiredo da Silva ou Zé Fradinha, apelido dado tão logo chegou a Macaíba em 1924, na luta para sobreviver fez de tudo. Mas, foi como gerente de um bar que surgiu o Zé Distinto, pela cordialidade de trato abrangente e superlativa. Aí ele passou a se incorporar a geografia humana e sentimental da cidade. Era o Zé Distinto por trás do balcão de um amplo bar, no comando de fregueses heterogêneos, desde deputados, prefeitos, vereadores, funcionários, operários, motoristas, jogadores de baralho, vagabundos, a todos ele conhecia pelo nome, resumidos a sua humanidade comum.
 
A força telúrica desse homem simples, contagiava quem dele se aproximasse. Era o nosso embaixador onde quer que chegasse. Parecia ser a própria multimídia da terra de Auta de Souza e de Octacílio Alecrim. Sem instrução mas com carisma. O sentimento de macaibanidade assumia maior relevância do que a lei da honraria.
 
Zé Distinto tinha  uma memória invejável. Certa vez, me trouxe o seu "dossiê" histórico constituído de um grosso volume com fotos de personagens e aspectos urbanos de Macaíba dos anos 20 a 80. Relembrava fatos e guardava fotos de 1929, da visita de Washington Luiz a Macaíba e Getúlio Vargas em 1933, para inaugurar a antiga sede da prefeitura local. Sempre visitava Cascudo no Casarão da Junqueira Aires. O mestre lhe tinha uma ternura especial pois conhecera os pais e a família de D. Dália Freire Cascudo, todos de Macaíba. De sua coleção particular saíram fotos de prédios centenários da cidade que hoje emolduram as paredes do museu do Solar do Ferreiro Torto. Um homem assim, sem estudo, mas doutorado pela universidade da vida, com a sensibilidade cultural sem ser intelectual, não pode ser esquecido. Bem que a prefeitura de Macaíba e a câmara municipal poderiam fazer alguma em seu homenagem. Ainda é tempo para despertarem. 
 
O exemplo dado por Zé Distinto, de humanidade, de valorização da vida, de amor a cidade, de preocupação com a preservação da história cultural do município não poderá ser em vão. Era católico, respeitoso, não se queixava a ninguém da pobreza que o afligia. Gostava de conversar como ele. Mergulhava no passado longínquo de Macaíba e conseguia à maneira de Marcel Proust restituir a memória táctil, olfativa de todo esse universo desaparecido.
 
Tendo nascido aqui, não há alumbramento maior do que caminhar pelas ruas desertas a conversar mentalmente com os fantasmas da cidade ou sonhar os sonhos dos casarões que ruíram. Zé Distinto me conduzia a tudo isso como batedor fiel, timoneiro, ator e protagonista do passado e do presente. Um personagem extraído do Cine Paradiso, tenho certeza. Inesquecível.