Alfredo Neves

31/03/2020
 
Getúlio Moura Xavier - Um artista surrealista no Vale do Assu
 
 
Tabatinga fica no Vale do Rio Açu, é um antigo povoado que pertenceu a cidade de Macau-RN, Pendências e atualmente é um distrito do Alto do Rodrigues-RN. E foi nesse povoado, no ano de 1962 que Getúlio Moura veio ao mundo. Dois anos depois a sua família se mudou para Macau. O poeta, escritor, músico, historiador e artista plástico residiu até o ano de 2009 na maior produtora de sal do Brasil, indo se fixar a partir desta data no município conhecido como o berço dos poetas, a cidade do Assu. 
 
Em sua biografia na AMLA – Academia Macauense de Letras e Artes, onde ele é o membro da cadeira de número 15 e que tem como patrono Manoel Rodrigues de Melo, Getúlio Moura relata que começou a estudar aos sete anos, e foi com essa idade que veio o despertar para as artes através do desenho e ilustrando trabalhos e exposições escolares.
A Arte de Getúlio Moura é, na sua totalidade, surreais, em meio a essas podemos contemplar outras figurativistas e cubistas, telas sublimes e contemplativas. O primeiro contato que tive com ele foi na empresa em que trabalho, a Petrobras, e foi onde ele laborou até há alguns anos, vindo a se aposentar por tempo de contribuição ao INSS. 
 
Esse primeiro ato de familiaridade, amizade e proficuidade, que dura até os dias atuais, ocorreu em 1988. O artista detém além das habilidades na área da pintura, da fotografia, musica, poesia e literatura, nas horas vagas, designer gráfico; e foi por essa razão e sua maestria em criar capas de livros para escritores locais e estaduais, que solicitei ao Getúlio para desenvolver a capa do meu primeiro livro:  A Marcha do Homem. 
 
Focado nessa proposta cultural, em parceria com o saudoso sociólogo e professor Benito Maia Barros e João Vicente Guimarães, criaram o selo literário Imperial Casa Editora da Casqueira. Getúlio Moura idealizou mais de quarenta e duas capas para autores de diversos segmentos dentro da proposta da ICEC, além de diagramação e ilustração de vários livros.
 
Os resultados construtivos de Getúlio Moura Xavier em suas artes são, em analisando o conjunto de suas obras, de caráter surrealista. O termo Surrealismo surgiu por incrível que pareça da criatividade de um poeta, escritor e crítico de arte francês chamado Guillaume Apollinaire (1880 - 1918).  Apollinaire foi amigo de Matisse (1869 - 1954), Picasso (1801 - 1973), André Breton (1896 - 1966), Marcel Duchamp (1887 - 1968), Max Jacob (1876 - 1944) e George Braque (1882 – 1963), escreveu manifestos para diversas vanguardas artísticas, dentre elas o Cubismo e o Surrealismo. Há também quem atribua a origem do termo ao poeta e psiquiatra francês André Breton. Observa-se, que, em sendo o primeiro ou o segundo, ambos são poetas, e o movimento está intrinsicamente ligado também à poesia assim como às Artes Plásticas. Escreve Robson Mistersilva, no seu livro Artes & Expressão: “No Manifesto de Breton ele colocou como pontos principais a ausência da lógica, adoção de uma realidade “maravilhosa” e exaltação à liberdade de criação.” Os maiores artistas plásticos da Escola Surrealista são: Salvador Dali (1904 – 1989), Alberto Giacometti (1901 – 1966), Joan Miró (1893 – 1983), Max Ernst (1891 – 1976), entre outros. Cabe destacar que Salvador Dali foi o mais bem-sucedido, criando obras conhecidas tanto dos amantes das artes, como para os que tem pouca afinidade com o estilo. Elenco aqui algumas delas: A Persistência da Memória (1931), aquela que tem um relógio derretido escorrendo pela borda da mesa, Girafa em Chamas (1937), Os Elefantes (1948), Cristo de São João da Cruz (1951) e várias outras de valor monetário e artístico imensurável.  
 
No Dicionário da Pintura Moderna, no tópico sobre o surrealismo, Maurice Reynal (1884 – 1954), escreve que no Tratado da Pintura surrealista, Max Ernst sustenta que “nenhuma condição mental, consciente, de razão, de gosto, de vontade, não é de introduzir-se em obra surrealista absoluta” (p. 331). Por essa razão, numa explosão de criatividade vinda do seu subconsciente, repassados tanto para as suas poesias como para as suas telas, Getúlio Moura produz Artes belíssimas. É um artista irrequieto, multifacetado e de uma visão para além do seu tempo. 
 
Os elementos pictóricos que atestam a sua identidade com o movimento surrealista estão em suas telas como um todo. Analisei três delas, como as mais importantes, a destacar: Apolo e Vênus (1996), A Espera (1987) e, Dimensional (1988). Esta última, a mais marcante no que se refere aos símbolos abraçados pelo pintor espanhol Salvador Dali, onde o homem moderno, com trajes para um clima tropical e envolto a uma metrópole totalmente ladeada por uma grande muralha, clama espantado por uma nova vida, ao longe usinas nucleares em forma de ovos.  É uma tentativa quase insana de procurar a liberdade nas calmas águas do sertão, mas infelizmente o símbolo da vida e que também pode ser o da morte, o gigantesco ovo, já quebrado a casca, mostra que outros seres nascem e transformam o mundo. 
 
E é assim que escrevo sem muito arrodeio sobre este valoroso artista potiguar e a sua Arte surrealista. A sua dedicação vai além das suas telas multicores. Desde 1983 que Getúlio Moura tem realizado diversas exposições de pinturas e fotografias, tanto em Macau e Natal, e recebido prêmios no Rio de Janeiro e na Bahia.
A sua variada e incansável dedicação à cultura tem nos ofertado obras brilhantes, como os livros: Operações Práticas  na Produção de Petróleo (1995); Instinto Reverso, poesia (1997); A Escola de Macau, poesia (coletivo) (2003); Um Rio Grande e Macau – Cronologia da História Geral (2005) e Antiquíssimo – Pré-história Humana do Rio Grande do Norte (no prelo). Na música, foi um dos fundadores do Grupo Mambembe, de música popular brasileira (1987-2000), ao lado de Tião Maia, Laércio Negão e Chico Mago e com a participação de outros artistas locais como Airton Valentim, Agassis e Yale Clecino. Atualmente desenvolve o registro da flora, da fauna, dos fenômenos e das paisagens do vale do delta do rio Açu; fotografando quase todas as floras silvestres da transição litoral/sertão, das ervas às árvores.
 
Por essa razão, considero Getúlio Moura Xavier um dos maiores artistas plásticos e multicultural do Estado do Rio Grande do Norte e do Brasil, compondo assim um dos grandes legados da nossa cultura e do nosso patrimônio histórico. 
 
Algumas informações sobre o autor foram cedidas gentilmente pela Academia Macauense de Letras e Artes (AMLA).