Ana Paula Campos

06/04/2020
 
Coronavírus... E depois?
 
Há alguns dias postei em minhas redes sociais que não iria escrever para a minha coluna sobre o Coronavírus, tendo em vista que julgava ser mais necessário continuar discutindo as questões que envolvem a negritude. Alguns colegas me questionaram se as duas coisas não estavam ligadas e que, portanto, a questão merecia minha atenção. Argumentei que diversas cientistas negras estão debatendo o tema à exaustão, inclusive, em lives com discussões riquíssimas entre si, o que, para mim, era suficiente. Contudo, resolvi escrever sobre a pandemia para, antagonicamente, justificar o porquê de não escrever. 
 
A princípio, preciso lembrar aos meus leitores de que não sou jornalista, logo, não tenho a obrigação de discorrer sobre todos os acontecimentos. E depois, como afirmou certa vez a youtuber Rita Vun Hunty, não sou delivery de conhecimento. Não estou à disposição para esclarecer prontamente a sociedade apenas acerca do que ela deseja saber naquele momento. Meu propósito com a coluna semanal é discutir, principalmente, temas a respeito dos quais as pessoas evitam falar. Se não fosse para tirar as pessoas da zona de conforto eu sequer viria...
 
Mas vamos ao Coronavírus. Vivemos sob uma estrutura de desigualdade social e essa pandemia apenas evidenciou a situação de precarização das periferias que, além de não poderem se manter em isolamento social, não têm sequer água e sabão para lavar as mãos. O momento atual descortinou a condição de vulnerabilidade da classe operária brasileira, sobretudo a periférica, que trabalha na informalidade. Nós sabemos qual é a cor dessa população em sua maioria: preta! Não é por acaso que a primeira morte por Coronavírus no Brasil foi a de uma empregada doméstica negra que, como muito bem denunciou Djamila Ribeiro em sua coluna na Folha de São Paulo, não teve nem o direito de ser nomeada. Era “apenas” uma empregada. 
 
A filósofa e ativista Suely Carneiro já dizia que no Brasil raça faz classe. Basta que lembremos a construção histórica desta nação. Aqui, as pessoas negras foram empurradas para uma espécie de “não lugar”, isto é, a marginalização, desde o período escravagista. O Brasil foi o último país do hemisfério ocidental a abolir a escravidão. Durante quase 400 anos o negro foi visto como mercadoria pelo colonizador branco.
 
Então, quando vejo o presidente da República, em um gesto genocida, defender a volta dos/as trabalhadores/as pobres às ruas (sim, porque a elite não vai sair de casa), argumentando que está agindo assim para proteger a economia, e tendo apoio inclusive da classe média (que acha que é elite), que saiu às ruas em seus carros com vidros devidamente fechados, imediatamente me recordo do escravo de ganho. Aquele/a negro/a que tinha o direito de sair para trabalhar nos centros urbanos da cidade, mas que, no fim, seguia sendo um escravizado. Esse homem e essa mulher, mesmo trabalhando fora da fazenda para ganhar o seu sustento, não era verdadeiramente livre. A diferença é que naquela época eles/as tinham consciência disso. 
 
A classe trabalhadora de hoje não entendeu que é ela quem move a economia, mas que não é ela que se beneficia com isso. No período colonial, escravagistas também alarmavam que com o fim da escravidão a economia quebraria. O fato é que só estamos discutindo isso agora porque o COVID-19 não faz distinção de classe, raça e gênero. Então, senhores/as, o foco dos debates não deveria ser o Coronavírus, mas sim o sistema capitalista.
 
Não faço parte do time que acredita que a humanidade vai evoluir espiritualmente depois da quarentena. As pessoas estão brigando em supermercados por papel higiênico e pirando porque não conseguem simplesmente conviver sob o mesmo teto com seus pares. Como eu posso esperar que essa humanidade (leia-se elite branca) nos veja com dignidade e repense seus privilégios?
 
Sigamos, pois, lendo, pesquisando e estudando sobre temas que venham a nos fortalecer como raça e como classe trabalhadora, na medida em que nos protegemos do vírus conforme nossas possibilidades e desse sistema colonial. A pandemia certamente vai acabar; já essa estrutura de opressão, segue em manutenção para não se extinguir.