Bia Crispim

10/04/2020
 
Um pouco de poesia, por que não?
 
 
Semana passada, fizemos aniversário de um mês colaborando com o jornal Potiguar Notícias em uma coluna publicada todas as sextas-feiras, o que nos enche de orgulho. (Percebam que refiro-me no plural, porque represento muitas outras vozes.) Durante essas 5 primeiras semanas falamos sobre nossa capacidade de mutação, sobre potencialidades do ser, privilégios e vulnerabilidade, sobretudo das pessoas trans e travestis. 
 
Discutimos preconceitos e estereótipos, falamos sobre nossa realidade pandêmica amedrontadora. Tocamos no mal que as fake news causam à sociedade alimentando pós-verdades e discursos de ódio. Cobramos políticas públicas, oportunidade e respeito para as pessoas trans, e também para a comunidade LGBTQIA+, como um todo. Fizemos, ainda, divulgação da campanha em prol das pessoas trans e travestis em situação de vulnerabilidade, devido à pandemia.
 
E acompanhando a produção dos demais colegas colunistas, observamos que nossas falas estão tão preocupadas, reivindicadoras, assustadas, instáveis, sérias, que, essa semana, para começarmos nosso segundo mês, decidimos falar sobre um tema que parece dialogar com o que temos escrito. Resolvemos abordar o tema da SOLIDÃO. 
 
Porém não faremos uma discussão acalorada nem filosófica sobre isso. Apresentaremos a solidão de outra forma, talvez mais leve, mais produtiva, mais positivamente companheira, mais poética. E para tanto, já que hoje é sexta, convidamos vocês, queridos leitores, para ler poesia. 
 
Ei-la!
 
SOLIDÃO
 
Há alguns anos me perguntaram
qual era o meu maior medo
– A solidão – 
respondi, eu.
 
Até o dia em que ela
chegou de mala e cuia,
tirou seus sapatos elegantes,
pôs um disco na vitrola,
preparou um café...
 
Depois acendeu um incenso,
pegou um livro na estante,
sentou-se na poltrona diante da minha...
E só então, notou-me, 
estática e apavorada 
com sua presença.
 
De repente, passando-me a xícara
fumegante e cheirosa,
perguntou-me,
mostrando o livro em suas mãos:
– Já leu este?
– O que achou dele?
(...)
 
Estamos discutindo
Literatura
até agora.
 
(Encham a semana de vocês de poesia e leveza. E encontrem, no isolamento e na solidão, uma companhia produtiva, um tempo para apreciar o belo que pode estar nas palavras e fora delas. Fiquem em casa. Fiquem bem).