Ana Paula Campos

20/04/2020
 
 
QUAIS SÃO SUAS REFERÊNCIAS LITERÁRIAS E O QUE ISSO DIZ SOBRE VOCÊ?
 
 
O período de pandemia exigiu de nós o isolamento social e isso intensificou a quantidade de brincadeiras no Facebook. Uma em particular me chamou atenção. Um internauta organizava uma lista com vários/as autores/as e convidava outros/as para fazerem o mesmo. Vários/as amigos/as postaram suas listas e eu resolvi postar a minha também. Analisando as listas, comecei a questionar o porquê de a maioria dos autores selecionados serem homens brancos.
 
Lancei, então, um desafio na rede, solicitando que todos/as revissem suas listas e analisassem quantas mulheres estavam presentes e quantos negros/as foram lembrados. O que deveria ser um exercício de percepção das influências do machismo e racismo estrutural em nossas vidas tornou-se uma queda de braço. Algumas pessoas brancas saíram em defesa de suas listas; algumas, inclusive, afirmando que não existe relação entre não ser racista e não ler obras de autores/as negro/as.
 
Para além da brincadeira, listas como essa deveriam servir como instrumento de análise com vistas à reflexão e à mudança de pensamentos e ações. Pelo caráter instantâneo das redes sociais, muitos/as elaboraram suas listas quase no automático, revelando o que perpassa pelo nosso inconsciente, evidenciando os discursos da nossa cultura que constroem nossas identidades. Talvez na tentativa de nos igualarmos ou nos posicionarmos no patamar na intelectualidade, a maioria – e aqui reforço que não estou falando de todos – citou majoritariamente autores brancos.
 
Aprendemos com a história que nos é contada que os grandes cânones da literatura são brancos. Até Machado de Assis foi embranquecido pela elite branca do nosso país. Não importa se Alice Walker recebeu os prêmios National Book Award e Pulitzer de Ficção ou se Toni Morrison, além desses, recebeu também o prêmio Nobel de Literatura, a Medalha Presidencial da Liberdade, dentre tantos outros títulos. Em âmbito nacional, não importa se Carolina Maria de Jesus é considerada umas das mais importantes escritoras do país, sendo a primeira mulher negra a ter seus livros publicados em todo o mundo, ou se Conceição Evaristo recebeu o prêmio Jabuti de Literatura; elas não foram lembradas na maioria das listas expostas. 
 
Convenhamos, o universo editorial é branco e machista e as grandes editoras são quem ditam o deve ser lido, formando, com isso, o nosso inconsciente coletivo que é essencialmente racista. Para que avancemos, precisamos reconhecer as bases que estruturam essa manipulação. 
 
Com estas palavras, não tenho a intenção de negar ou de desconsiderar o valor dos escritores brancos internacionais; antes, apenas proponho que agreguemos autores não brancos à nossa lista. Sim, nisso me incluo. Revendo minha lista, verifiquei que não citei autores potiguares e indígenas. Temos verdadeiras potências literárias bem aqui, ao nosso lado, mas que não foram lembradas em nenhuma lista que vi. 
 
O ato de publicar com frequência, em minha página do Instagram, os títulos de livros que tenho lido, na realidade consiste em um ato de coragem, uma vez que estou admitindo publicamente quais obras são relevantes para mim e quais tenho negligenciado. Todavia, o mais importante é que compreendamos que nossas escolhas não são naturais, tampouco definem o nosso caráter.
 
Crescemos tendo a verdade da elite como única e universal. Então, quando alguém levantar esse tipo de reflexão, antes de sair defendendo “seu pensamento” (sim, porque no fundo não é sua opinião, é fruto de uma estrutura colonial) com unhas e dentes, pare e pense: por que não li/leio obras de negros/as e indígenas? O que me levou a isto?
 
Como muito bem elucidou minha amiga Josely Ferreira em um post, não tem como você compreender as pautas do feminismo sem ler mulheres, assim como não há como ser antirracista sem ler obras de negros e indígenas. No post citado, o debate não se estabeleceu com todos/as, mas será que agora vai? Apenas permita-se sair da caixinha. Você só tem a ganhar e nós, que sofremos com o racismo dos brancos, também.
 
Gratidão a Ana Cláudia Trigueiro, psicóloga e escritora; Josely Ferreira, sambista e professora; Bia Crispim, professora e colunista do Jornal Potiguar Notícias; e Dulce Gomes, professora, pelas conversas frutíferas sobre o assunto. Nossos diálogos são sempre engrandecedores. 
 
Siga @_livros_e_leituras_ e veja dicas de livros e impressões de leitura.