Ana Paula Campos

27/04/2020
 
DE MUCAMA À DOMÉSTICA
 
A primeira pessoa a morrer no Brasil por COVID-19 foi uma empregada doméstica que sequer teve seu nome revelado pela mídia. A atriz Isis Valverde se vangloriava de ter dispensado a maioria dos/as seus/as empregados/as em um vídeo gravado por ela mesma em sua casa, quando antagonicamente atrás aparecia a emprega negra que permanecia na cozinha para atender sua família. Também não faz muito tempo estávamos todos nos mobilizando para tentar barrar a reforma da previdência. Negras/os e brancas/os se uniram contra os futuros prejuízos que surgiriam com a mudança. Sem querer desmerecer a luta, preciso destacar que só houve revolta geral quando o fato ameaçou o futuro de todas/os. Djamila Ribeiro já trazia essa discussão em seu livro, Quem tem medo do feminismo negro.
 
A grande maioria das pessoas que trabalha fazendo faxina em “casas de família”, em geral mulheres negras, não tem carteira assinada e, justamente por isso, não tem seus direitos assegurados. Trabalhando como diaristas, tais mulheres têm hora para chegar, mas não têm hora para sair. Não estão acobertadas caso sofram acidente no trabalho, não recebem décimo terceiro e férias, não receberão seguro-desemprego e muito menos poderão se aposentar. Não vi e ainda não vejo a mobilização geral dos brasileiros em defesa dessas mulheres.
 
Quando eu era criança, lembro-me de uma prática muito comum aqui em Natal. Famílias do interior do estado que sofriam com a seca, o desemprego e a falta de recursos e oportunidades para se manter, costumavam enviar suas filhas para morar nas “casas de família” na cidade grande. Crianças ainda, pois sequer tinham atingido a maioridade, deveriam fazer o “trabalho doméstico” sem carteira assinada. As madames se vangloriavam de estar dando oportunidade para que essas meninas trabalhassem e estudassem. Elas deveriam trabalhar durante o dia e estudar no período noturno em escolas públicas após um dia estafante de trabalho. Relatos semelhantes nos são apresentados em Diário de Bitita, de autoria de Carolina Maria de Jesus ou nos contos de Conceição Evaristo.
 
Historicamente, a palavra “doméstica” está relacionada às mulheres que trabalhavam dentro da casa dos senhores de engenho no período colonial. Tão logo “domesticadas”, estariam aptas para trabalhar nas “casas de família”. Essas meninas-domésticas, devidamente “domadas”, eram exploradas diariamente sob o prisma hipócrita do assistencialismo. 
 
Longe de casa, elas dividiam o novo lar com os filhos das madames, os quais, não raras vezes, abusavam sexualmente dessas meninas. Ao iniciar sua vida sexual, frequentemente eram incentivados pelos próprios pais, em uma atitude machista, racista e criminosa, a ver naquelas crianças um meio de ganhar experiência sexual, sem, no entanto, ter qualquer tipo de compromisso com elas. 
 
Como estudei a vida inteira em escolas particulares, ouvia com frequência as narrativas debochadas dos jovens da classe média sobre isso.
 
Em seu artigo Gênero e raça na sociedade brasileira do livro Escritos de uma vida, a filósofa Sueli Carneiro afirma: “Nota-se que estamos diante de um continum histórico que passando de mucama à doméstica, mantém a tradição de abuso sexual da mulher negra (...) p.167”. A professora e ativista do Movimento Negro Unificado, Lélia Gonzales, corrobora com essa afirmação quando em seu artigo Racismo e sexismo na cultura brasileira, nos traz o relato de uma mulher negra que denuncia a iniciação e prática sexual dos rapazes brancos de famílias abastadas com as “criolas”.
 
É por causa de realidades como essas que precisamos do Feminismo Negro. Nossas pautas são diferentes. As mesmas mulheres brancas que saíram às ruas em defesa dos seus direitos são as que, muitas vezes, exploravam a mão-de-obra de mulheres negras, ganhando à custa da nossa raça. Enquanto queimavam sutiã e reivindicavam o direito ao trabalho fora de casa, em suas casas mulheres negras faziam a faxina e cuidavam dos/as seus/as filhos/as. Para Sueli Carneiro, “(...) desprezar a variável raça na temática de gênero é deixar de aprofundar a compreensão de fatos culturais raciais e preconceituosos determinantes nas violações dos direitos humanos das mulheres no Brasil que estão intimamente articulados com a  visão segundo a qual há seres humanos menos humanos do que outros e portanto aceita-se complacentemente que estes não sejam tratados como detentores de direitos.” P. 167
 
Tais práticas são um reflexo da colonialidade: aboliram a escravidão, mas mulheres negras ainda vivem na condição de subalternidade e exploração. As mulheres negras da faxina são mantidas numa esfera de desvalorização, desigualdade e invisibilidade na sociedade. Mulheres negras são vítimas diariamente da opressão feminina branca. É por esta razão que apenas o recorte de classe não basta. É preciso levarmos em consideração a raça como estruturante.
 
Para finalizar, deixo você com a frase de Joice Berth autor do livro Empoderamento da Coleção Feminismos Plurais, cujo questionamento me desestabilizou por vários dias: “Você trabalha pela emancipação sociopolítica de mulheres ou usa mulheres para trabalhar pela evolução do seu status social?”
 
Reflita!