Renisse Ordine

30/04/2020
 
Diários de quarentena: A escrita como terapia para as incertezas 
 
A escrita é um registro para o futuro e um desabafo para esses dias incertos. Cintia Carbone e Sônia Gabriel, mães e educadoras, fazem diariamente suas observações nas redes sociais, refletindo sobre o desafio de viver um dia de cada vez, sem saber o que o futuro nos reserva. 
 
A memória é a faculdade de esquecer, assim dizia um professor de filosofia, pároco da minha cidade natal, Itanhandu/MG, que tive na minha época de colegial. Frase, esta, que levei como um ensinamento para a vida. Estou sempre fazendo anotações sobre tudo o que preciso lembrar, principalmente, no que se referem às minhas pesquisas, leituras e estudos. Confesso, tenho péssima memória!
 
Temos a destreza de nos esquecermos de tudo, não digo do fato em si, mas dos detalhes de como foi, o que aconteceu. Como era mesmo? Onde eu estava mesmo? São perguntas corriqueiras quando recordamos o passado. Raras são as pessoas que tem uma memória privilegiada. 
 
Desde os homens das cavernas, a necessidade de deixar uma marcar do momento, é evidente. Se não fosse o desejo da comunicação existente no ser humano, não saberíamos de nada. E que triste seria isso! Sem a escrita, um fato poderia ser sempre reinventado, viraria lenda. Pois, se dependêssemos somente da oralidade, nada teria exatidão. Foi assim que surgiu o folclore e as lendas.  O causo vai repassando de geração em geração, vai perdendo partes, ganhando outras emendas. É como brincar de telefone sem fio. 
Bom, infelizmente, há aqueles infelizes que desejem que o povo fique sem memória, por isso, essa semana tivemos mais um ataque ao Historiador, esse profissional que pesquisa, analisa e escreve a história da humanidade. Não é atoa que querem isso. Seria mais fácil manipular o povo, não é?
 
Agora, outro lado, igualmente encantador da escrita, ela é terapêutica, um desabafo da alma. Desde que fomos surpreendidos por esse novo normal e por  essa mudança brusca de rotina, falar sobre isso é necessário. Já que possa ser em grupo, que seja pelas redes sociais.
 
Os Diários de Quarentena, além de ser um alivio para quem escreve, serve como reflexão para quem os leem. Uma vez que, é revigorante saber como o outro está lidando com essa dificuldade comum a todos. 
 
É o caso de Cintia Carbone e Sônia Gabriel, mães, mulheres ligadas à educação e à cultura do Vale do Paraíba, que decidiram escrever sobre como elas tem passado por esses dias, em casa com suas famílias. Seus Diários de Quarentena são reflexões sobre a convivência familiar, o envolvimento e o planejamento das tarefas domésticas, estudo e trabalho. Estando elas seguras dentro de seus lares, mas inquietas com o sofrimento que aflige outras famílias que batem de frente com o terrível vírus e sofrem as duras consequências causadas por ele. 
 
Em seu perfil social, Cintia deu inicio ao seu diário, logo no inicio da pandemia, em que fomos orientados a seguirmos o isolamento social. Sendo ela, uma contadora de histórias infantis, escolheu essa maneira de registrar esses dias para futuramente poder contar aos seus filhos, principalmente ao pequeno Pedro, que pouco se lembrará desses dias em que as aulas foram suspensas e teve que se afastar dos amigos da escola.  
 
Com o diário, ela também inspira outras mamães de filhos pequenos, demonstrando uma rotina que inclui a elaboração de atividades pedagógicas para distrair os seus filhos, e a organização de sua live, para no fim do dia, poder contar histórias, para também entreter outras crianças, utilizando um cenário todo elaborado por ela, tendo o Pedro como ajudante. 
 
 “Dia 21 de março, o primeiro dia de isolamento, sabia dentro do meu coração que seriam longos dias em casa, e também que esses dias mereciam um registro, então decidi fazer um diário, para no futuro lembrar os detalhes, mostrar para meus filhos, principalmente o Pedro, que tem 4 anos, os dias que passamos e vencemos . Hoje já escrevo o 35º dia, e meus relatos são mais do que registros, como antes tinha pensado, eles me proporcionam diariamente, autoconhecimento e uma  reflexão do que se passou naquele dia com o mundo, com minha família e comigo mesmo. Sou professora, mãe, artesã e contadora de histórias. Tenho me esforçado para aprender e usar esse tempo a nosso favor, fiz um canal de contação de histórias, pensando nos meus e alunos, passei a produzir outras peças no meu ateliê, passei a gravar aulas e vídeos de orientações para meus alunos, e invento algumas atividades alegres para envolver meus filhos. Algumas vezes pensei em parar de escrever, mas sempre acontece algo para eu continuar, alguém que fala que está esperando para ler, ou falando que ler meu diário  faz bem. Então continuo. Tudo vai passar, e o que eu penso , é como vamos estar depois que tudo passar?” ( Cintia Rosa Carbone)
 
A escritora e pesquisadora Sônia Gabriel, utiliza-se de seu diário, também em seu perfil social, como forma refletir sobre as pessoas e como elas vem lidando com as responsabilidades necessárias para este momento. Uma análise que desperta em seus leitores uma percepção de como vivíamos anteriormente e de como deveríamos nos remodelar para um futuro próximo. Um de seus pensamentos, que merece ser ressaltado, é sobre o consumo, e a maneira como nos entregamos ao consumismo desenfreado, muitas vezes desnecessário. Pois, agora que não podemos andar pelas ruas e lojas, seria bom pensarmos se realmente precisamos de tanto para viver. Será que é preciso tanto TER? Fica aí o questionamento levantado por Sônia. 
 
"Estamos vivendo uma realidade nunca imaginada por nós. As pessoas, diante do desconhecido que angustia, procuram ferramentas internas para sobreviverem. As respostas ao inesperado manifestam-se de curiosas formas: alguns negam, outros se revoltam, outros se encolhem em si mesmos. Eu observo, reflito e escrevo. Minha saída nesses dias iniciais do distanciamento social, literalmente na quarentena, tem sido dividir, via rede social, o que me aflige, sensibiliza, indigna, emociona de forma a alimentar o espírito com a esperança de que dias melhores virão. Os tantos comentários dos leitores e amigos vieram a comprovar que a palavra e o diálogo são ferramentas importantes nesse contexto."
Sintam-se inspirados por essas mulheres, que encontraram essa forma de comunicação para exporem os seus sentimentos ao mundo. Apesar do distanciamento social, elas estão presentes, demonstrando que o mundo interno e externo continua a girar, e eles precisam se alinhar, em algum momento.  E mais do que nunca, precisamos abraçar as pessoas, e a escrita é o vínculo mais amoroso que podemos oferecer por esses dias.