Bia Crispim

01/05/2020
 
TRANSformações
 
 
Lembro-me que me deparei com a ideia, não sei se li ou ouvi, de que quando uma pessoa trans inicia seu processo de transição, modifica não só a si, mas todos ao seu entorno.
E isso é bem verdade. Muitas pessoas acreditam que os processos de autoconhecimento e de transformações pelas quais passa uma pessoa trans limitam-se apenas a ela e a seu corpo e comportamento. 
 
Ledo engano.  Conviver com uma pessoa trans implica na transformação do ambiente onde ela interage. Implica na transformação das pessoas com quem ela convive (ou deixa de conviver...). O autoconhecimento, a maneira de se dar com o corpo e o comportamento dos outros também são alterados.
 
Transforma a família (que pode se tornar agressiva e intolerante ou extremamente acolhedora e amorosa); transforma o bairro onde a pessoa trans mora (os vizinhos vão aprender a tratá-la de outra maneira, ou não, escorraçará essa pessoa do convívio comunitário com medo de “contaminar” outros); transforma o ambiente de trabalho (que pode acolher tais mudanças ou mostrar-se extremamente excludente).
 
De alguma forma, revelando respeito, amor e tolerância, ou desmascarando preconceitos, intolerância e ódio, uma pessoa trans altera o ambiente com sua “nova forma de ser autêntica”.
 
Conviver com uma pessoa trans revela muito sobre os preconceitos, o amor ao próximo, a estampa de bom cristão, ou bom samaritano, ou de cidadão de bem que muita gente ostenta (mas cai por terra em certas ocasiões).  Revela também a maneira como muitos entendem a sexualidade humana (boa parte de forma tão fechada no binarismo homem e mulher) e de que forma aceitam ou não as relações incalculáveis que se podem construir entre os indivíduos.
 
Transforma a maneira como as pessoas podem ou não lidar com o novo, com as decisões particulares, com a felicidade alheia, com a diversidade enriquecedoramente abundante que é o ser humano em todas as suas complexidades, formas e performances.
 
Uma pessoa trans transforma a si, sim, porém, mais que tudo, transforma o seu entorno em um espaço humanamente mais rico (por mostrar outras formas de ser), tolerante (por pedir respeito e acolhimento) e plural (por revelar o quanto somos diversos).
 
Transformações internas e externas em si, internas e externas nos outros.
 
Um VIVA, então, às TRANSformações e tudo aquilo que de bom elas nos ensinam para nos tornarmos menos padronizados e mais autênticos. Para nos tornarmos mais humanos, mais livres em nossas escolhas e mais acolhedores com nossas idiossincrasias.