Cefas Carvalho

02/05/2020
 
Livros lidos em 2020: "Velhos", de Alê Motta
 
VELHOS.
Autora: Alê Motta
Editora Reformatório. 2020.
 
Bem, como muita gente, comecei essa quarentena achando que ia ler até não poder mais. Para em seguida perceber que não conseguia manter o foco na leitura. Porém, passadas mais algumas semanas a situação meio que se equacionou e consegui voltar a ler. Inclusive com leituras já concluídas de livros de Marguerite Duras e Alberto Moravia para comentar aqui nesta série.
 
Mas, foi necessário "furar a fila" aqui no Feicebuque para comentar esse livro recém-adquirido e já devidamente lido. Trata-se de um ótimo livro conceitual de contos, todos eles, sem exceção, abordam o tema descrito de maneira seca no título. São contos curtos, envolvendo gente idosa às voltas com doenças, cegueira, limitações, vontade de morrer, alegrias, desejos, lembranças e dores.
 
Alguns contos não ultrapassam uma página, evocando a frase célebre de Cortázar: "No romance o escritor vence o leitor por pontos, no conto o escritor tem que vencer por nocaute". É o que acontece. Quase sempre narrados em primeira pessoa, seja na voz masculina, seja na feminina, os contos gravitam por toda a paleta de emoções humanas e obtém êxito na luta para "fisgar" o leitor. Algumas das histórias arrancam piedade e compaixão; outras, risos e algumas ainda um certo, horror, pois, sim, os idosos retratados por Alê Motta não são todos/todas de boa índole e pacatos. Como dissemos, as nuances humanas estão todas ali.
 
Inclusive o conto que abre o livro, "Herança", já aborda o tema da crueldade, na minha opinião, os contos neste tom são os mais bem sucedidos em termos literários (minha filha Ananda diria que é porque tenho apreço por temas mórbidos, bem, que seja). Nesta toada, meus preferidos são "Visitas", "Decisões" e "Passado". Leitura recomendada sem reservas.