Ana Paula Campos

04/05/2020
 
Manual de Maternidade (Feito por homens)
 
 
Mediante o quadro de pandemia que exigiu de todos/as nós, na medida do possível, o isolamento social, eu passei a gastar mais tempo do meu dia com as redes sociais, postando bobagem no intuito de desopilar um pouco. Em um desses momentos, brinquei da seguinte forma:
 
“Não vejo a hora dessa pandemia acabar para eu poder despachar Giovana para a escola... digo, estou tão preocupada com a educação de Gigi.”
 
Não tardou para que várias mães se identificassem com a situação e, simplesmente, achassem graça da postagem. Mas, como era de se esperar, alguns homens contribuíram com seu vasto conhecimento sobre a maternidade e trataram de me deixar instruções pedagógicas de como eu deveria proceder, além de tecer críticas sobre a minha procedência como mãe:
 
“Coloque essas crianças para ler mais livros e relaxar, fazer uma ficha de leitura ou um desenho do que leu. Tem aulas maravilhosas no Youtube.”
 
O sujeito em questão não é pedagogo, mas dominava a mágica fórmula de entreter crianças confinadas, mesmo sendo eu a pedagoga. Diante da minha contestação de que não se tratava da falta de atividades, mas dos excessos, ele também não demorou em declarar a solução:
 
“Seu caso não é raro. Talvez seja a hora de conversar sobre isso com suas crianças. Algumas são dependentes e carentes de atenção em tempo integral.”
 
Outro também não resistiu e resolveu deixar sua valiosa contribuição com a seguinte declaração: “É hora de aprender com os filhos, de aprender para ensinar aos filhos”.
 
O fato é que, apesar de tê-los em minhas redes sociais, não nos conhecemos pessoalmente e eles não sabem nada a meu respeito, exceto pelo que posto nas redes sociais. Sou professora do Ensino Fundamental I. O que não me faltam são ideias e o conhecimento da didática para executá-las da melhor forma. Minha filha, apesar de bastante independente, acabou de passar por uma cirurgia e não pode parar a fisioterapia que precisa ser repetida mais quatro vezes em casa. Ademais, recebo diariamente atividades da escola visando manter o ritmo produtivo dos alunos. Como se isso não bastasse, minha filha tem problema auditivo, então, também recebemos atividades do Centro auditivo para estimular a audição. 
 
Eu não estava me queixando da falta, mas sim do excesso de tarefas que temos que cumprir.
 
Questões relacionadas à educação dxs filhxs são complexas e precisam ser analisadas a partir das especificidades de cada criança e de cada contexto familiar. Mesmo como pedagoga, não estou habilitada a sair por aí criticando a metodologia de educação das minhas colegas, haja vista que o que tem dado certo para mim, pode não dar certo para elas.
 
Historicamente, foi relegada às mulheres a tarefa de servir como “fábrica de gerar trabalhadores” para o sistema capitalista e educá-los em caráter domiciliar, preparando-os para a inserção no mercado de trabalho. Os homens estavam sempre fora, contribuindo para o avanço da economia, como lembram Hegel e Karl Marx. 
 
A colunista Renisse Ordine, do Jornal Potiguar Notícias, escreveu uma excelente crônica intitulada Para mulheres, porém escritas pelos homens, assim era a revista Espelho Diamantino, que dialoga perfeitamente com esse fato. Ao discorrer sobre a primeira revista feminina a chegar ao Brasil pela Corte Real Portuguesa, a colunista diz: “A publicação dessa revista foi algo inovador para a sociedade, que apesar de não abrir espaço para as mulheres publicarem ou se manifestarem sobre as matérias, eram escritas por homens, que certamente se divergiam sobre a insignificância do papel da mulher na sociedade.”
 
Pensando a partir da perspectiva do Rio Grande do Norte, temos como referência o livro Revista Via Láctea, de Palmyra e Carolina Wanderley- Natal, 1914-1915, de Constância Lima Duarte e Maria Cunha Pereira de Mâcedo, trazendo todos os exemplares da Via Láctea, a primeira revista escrita para mulheres e por mulheres em 1914, como bem ressaltou a escritora Ana Cláudia Trigueiro, em uma fala durante uma mesa redonda sobre escrita feminina.
 
Em uma sociedade machista e patriarcal, não é de se admirar que, em pleno século XXI, homens ainda se sintam à vontade e no direito de nos dizer com devemos agir, quer seja como mães, quer seja como mulheres.
 
A nós, mulheres, cabe a subversão de seguirmos executando nosso papel como nos convém, livrando-nos do peso da culpa imposta por aqueles que muitas vezes até nos abandonam à própria sorte.
 
Seja mãe, mas não sinta culpa de reservar momentos para a mulher que você também é.