Vássia Silveira

02/05/2020
 
O exercício da flor
 
 
Para ler ouvindo Kitaro
 
Neste exato instante, em algum lugar do mundo, uma pétala se despede da flor. E antes de repousar na terra – não sei se árida –, entrega-se aos braços do vento. Mesmo com as pálpebras cerradas é possível imaginar a coreografia: há um rumor de folhas ao fundo, os pássaros estão quietos.
 
Aos olhos do observador, a cena não dura mais que alguns segundos. Mas o tempo da pétala é outro.
 
Sei que, abertos os olhos, repousa na janela outra imagem. Então os mantenho fechados. Interessa-me adivinhar o caminho desse pequeno ser, cuja pele tem textura sedosa, um corpo lânguido, cor de qanik. E séculos e séculos de memórias agitando as nervuras.
 
Deixando-se carregar gentilmente, e mesmo sabedora da despedida, há, eu sinto, um leve sorriso em sua face. Ouço-a dizer, quase sussurrando, sobre as alegrias e misérias, as ilusões que precisou viver para aprender a esvaziar-se. Não há rancor nenhum no espírito que lhe dá nome. Só a tardia compreensão de que a vida é muito mais do que se pode falar.
 
O vento silencia. E a pétala alcança, enfim, a terra. Com uma tristeza quase alegre, penso o quanto é bonita e assustadora essa despedida. E que nada sei do destino da flor, além do fato de que ela assim permanecerá por mais tempo.
 
Um ronco de motor me distrai. Abro os olhos. E então me dou conta, ainda sentindo nas pontas dos dedos alguma leveza, de que a paisagem da janela é uma extensão da trajetória daquilo que, minutos antes, eu chamava de pétala.